Edital MCT/CNPQ 14/2008 Universal Processo 470333/2008-1



Mostrando postagens com marcador Crítica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crítica. Mostrar todas as postagens

13 de novembro de 2011

O II FÓRUM ESTADUAL DE CULTURA



                                                 Joãozinho Ribeiro

Em meados de 2009, quando estive cedido para o Ministério da Cultura, como coordenador executivo da II Conferência Nacional de Cultura, tive a oportunidade de ouvir de um senhor ribeirinho da região amazônica a explicação mais sincera e pragmática sobre o papel de uma conferência pública.
Mestre Alarino, do alto dos seus 80 anos de história, provocado por uma jovem repórter de uma emissora de TV do Estado do Pará acerca desse assunto, não mediu palavras, nem pensamentos e foi direto na resposta: “É pra conferir, minha filha, se tudo está nos conformes”. Disse tudo!
As conferências públicas são espaços participativos mundialmente consagrados, se constituindo, por excelência, na forma de concertação adotada pela Organização das Nações Unidas para tratar das questões de relevante interesse mundial; como é o recente caso da Conferência de Copenhague, que pautou as questões climáticas, assim como a Conferência Mundial dos Direitos Humanos, realizada em 1993, que teve como principal resultado a Declaração de Viena, hoje com muitos dos seus artigos incorporados pelas Cartas Constitucionais de mais de uma centena de nações integrantes da Organização das Nações Unidas.
As conferências públicas no Brasil se consolidaram como espaços de participação da sociedade, que dão concretude ao exercício da soberania popular, prevista no art. 1º da nossa Constituição Federal. Servem também para qualificar as políticas públicas implementadas pelos diversos entes federados, municiando as casas legislativas de legítimas demandas, muitas delas transformadas em dispositivos legais que acabam incorporados ao ordenamento jurídico vigente.
No Maranhão, durante a gestão Jackson Lago, o Estado viveu um momento ímpar de sua história, no que diz respeito ao apoio e incentivo a realização de conferências e fóruns, valorizando a participação popular na construção de políticas públicas, em todas as regiões da nossa unidade federativa.
Particularmente, na área cultural, em dezembro de 2007, foi realizado o I Fórum Estadual de Cultura, o mais participativo e democrático até hoje realizado, contando com a presença de 1094 participantes, oriundos de todos os municípios do Estado, representando as diversas linguagens artísticas e os diferentes segmentos culturais. O Governador Jackson Lago se fez presente, prestigiando o evento ao lado do então Secretário de Articulação Institucional, Marco Acco, e do Secretário de Cidadania Cultural, Célio Turino; ambos representantes oficiais do Ministério da Cultura.
No I Fórum Estadual de Cultura foram definidas, de forma transparente e democrática, as diretrizes maiores para a implantação de uma política pública de cultura, baseada nos famosos três “Ds”: Democracia, Descentralização e Diversidade. Foi neste fórum que o Conselho Estadual de Cultura foi reconstruído, pois se encontrava desativado desde 1995; que o Plano Estadual de Cultura (2007/2010) foi debatido e aprovado; e que a proposta da criação de um Fundo de Desenvolvimento da Cultura Maranhense foi apresentada e referendada publicamente, posteriormente incorporada à Lei 8.912, de 23/12/2008, aprovada pela Assembléia Legislativa e até hoje não regulamentada pelo Poder Executivo, leia-se: pela Governadora Roseana Sarney.
Na semana que se inicia, precisamente nos dias 16 e 17, a Secretaria de Estado da Cultura realiza o II Fórum Estadual de Cultura, tendo como um dos seus principais objetivos a reestruturação do Conselho Estadual de Cultura, que novamente se encontra sem funcionamento, por conta da extinção do mandato da diretoria eleita e empossada faz mais de três anos.
Esperamos que todo esse passivo cultural seja devidamente resgatado durante os debates, principalmente pelos representantes dos municípios que estarão presentes no II Fórum, pois a implantação e consolidação do Sistema Estadual de Cultura já não pode mais esperar pela boa vontade política dos governantes, contrariando até as próprias diretrizes aprovadas nas últimas Conferências Estadual (2009) e Nacional (2010).
Sem Plano, Fundo e Conselho de Cultura, estruturados e em funcionamento, estaremos nos distanciando cada vez mais da gestão de uma política pública de cultura, e mergulhando, perigosamente, numa política de eventos, pautada no improviso e no imediatismo, onde o clientelismo e o apadrinhamento sempre prevalecerão.
Fazer política é fazer escolhas. Fazer política pública de cultura é escolher entre tomar decisões na solidão dos gabinetes refrigerados em nome da população, ou enveredar pela consulta de amplas parcelas da sociedade, estimulando o protagonismo e o exercício da cidadania, além de cumprir as deliberações debatidas e aprovadas nestes fóruns e conferências.
Para atingirmos estes objetivos o jeito mesmo é seguir, à risca, a sabedoria das palavras do Mestre Alarino e verificarmos desde sempre se “Tudo está nos conformes”.

29 de outubro de 2011

O BUNGA-BUNGA DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO-CULTURAL DE SÃO LUÍS/MA



BUNGA-BUNGA DO PATRIMÔNIO 
HISTÓRICO-CULTURAL DE SÃO LUÍS/MA

‎"Só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar.
E eu não vou me resignar nunca".
Darcy Ribeiro

O "Painel sobre o Centro Histórico de São Luís" realizado na Câmara Municipal da Capital, foi o anúncio antecipado do fracasso do "Projeto São Luís 400 anos"! Ouvimos, estridentemente, pronunciado com todas as letras, que a politicagem impossibilitou a organização da Programação integrada, entre os três poderes da República; restando apenas a realização dos ‘festejos’ em 2012! 
Fica a pergunta, que nunca quer calar: Festas para comemorar o quê? 
Parece que para os gestores de plantão não importa o 'quê' comemorar, basta a efeméride redonda, para promover o que mais sabem fazer: e-ventos efêmeros! 
Os benefícios concretos, físicos, materiais e ambientais para a população em geral, - alardeados e difundidos espetacularmente - esses, não serão realizados! 

Fracasso, incompetência e despreparo! O escárnio rondava as autoridades, paramentadas como se estivessem num enterro, sepultando um cadáver resignado, resoluto, minguado, tacanho: o Projeto São Luís 400 anos
Vamos acender as velhas velas mágicas e aromatizar o ambiente com incensos exóticos, como num exuberante bunga-bunga nativo! Atiçar muita fumaça para erguer cortina espessa ante os olhos perplexos dos cidadãos ludovicenses!

O desempenho administrativo dos gestores de plantão esteve sob o crivo dos vereadores e da galeria, na manhã de segunda-feira (31/10); e o temor estava estampado nos rostos de alguns integrantes da mesa! Porém, tirando forças, não se sabe de onde, num golpe de cena espetaculoso, os discursos sucederam-se invocando os mesmos argumentos técnicos e financeiros, de sempre, para defender o indefensável: o opróbrio de um Centro Histórico abandonado, fantasmagórico e sinistro!

Foi patético e ao mesmo tempo cômico, ouvir as ladainhas, por vezes enfurecidas, das justificativas para mais esse espalhafatoso fracasso... Proferidas com ar de pesar e sofreguidão! Cena que inspirava melancolia piedosa na platéia! Muito embora, pudéssemos ser cativados por uma baforada de compaixão momentânea, tal desempenho de gestores públicos merecia uma resposta à altura! 
Como pode agentes públicos passarem impunemente por tais vexames, admitindo o próprio desastre, e nada acontecer em contra-partida?

Entrementes, reverberava pelas paredes do salão a notícia estrondosa, diluída entre os lamentos! Eis a pérola lançada... Com menos de um ano para o esperado 08 de setembro de 2012, concluiu-se que não há mais tempo para realização de todos os Projetos do São Luís 400 anos, tão necessários e urgentes para a população; anunciados de forma espetacular por todas as mídias, pelos últimos dois anos! E agora? Pasmem, cidadãos! Proclamam que só nos resta 'festejar'! Vamos comemorar o abandono e o descaso, com muita bebida (e outras cositas mas), shows, mídia, desfiles... E o que fazer!? Ora! Cantar! 


Sorria! Sorria, meu bem, da infelicidade, que você procurou! Sorria, meu bem. / Hoje você chora, por alguém que nunca lhe amou! (Sorria, Sorria; de Evaldo Braga).

Eloquentemente traços marcantes sobressaíram, em grossas pinceladas, da postura dos agentes públicos na ocasião: a arrogância e o espírito autocrático - típicos em aprendizes de tecnocratas! 


Até esse Blog Teatro das Memórias já sofreu a fúria da 3a. SR do IPHAN, ainda sob interpelação judicial até poucos dias, quando foi extinta a punibilidade! 
(http://teatrodasmemorias.blogspot.com/2011/09/extinta-punibilidade-3a-sr-iphan-contra.html)


Punição legal pretendida baseando-se na antiga Lei Falcão; lei da censura do tempo da Ditadura Militar no Brasil! Ataque furioso recebido por expressarmos ideias críticas e contrárias às práticas rotineiras de arbítrio e falta de democracia - além de indignação pelo abandono e descaso - na imposição de um modelo fracassado de patrimonialização dos espaços sociais da memória coletiva da cidade. Fracasso admitido pelos próprios gestores no Painel ocorrido na Câmara Municipal de São Luís! 

Até quando será mantido e perpetuado esse estado lamentável de descalabro e indiferença? Impossível prever!

Percebe-se claramente, nos olhos dos gestores, uma variação de fúria, consciente e deliberada – expressando uma raiva incontida – que de repente muda a máscara para um tipo de ingenuidade e pureza d’alma, dos que fingem fazer o bem, com bons corações; límpidos como as águas da Fonte do Ribeirão! Chega a ser tocante e pungente!
Câmara Municipal de São Luís

Todavia, os problemas existem e destacam-se na paisagem urbana! Os desacertos na gestão do Centro Histórico gritam, repercutem, espalham-se para longe das fronteiras da Ilha, do Estado, do País! E, os nossos ‘heróis da preservação e do amor ao Patrimônio’, continuam incólumes e intocáveis; sentem-se indestrutíveis!

Querem nos ensinar a ‘amar’ o Centro Histórico, a ser ‘sensíveis’ com a História, e a ‘preservar’ a arquitetura colonial dos poderosos escravocratas do passado (e do presente?) ... 
Que metáfora instigante para uma pesquisa mais profunda!


Mas afinal, não são eles, os nossos gestores de plantão, que deveriam nos dar o exemplo desse ‘amor’? Não parece ser o caso; são maus professores! Fica, então, mais uma vez a velha lição moral (reload) do cinismo pós-moderno : - Faça o que eu digo, não faça o que eu faço! 

Nós, caros cidadãos, é que somos insensíveis, ignorantes e odiamos o passado! Eles, não, são os mestres e sábios da ‘preservação’! Pois, então, por que não são os primeiros a dar exemplos desse amor? Por que suas políticas não funcionam? Que estranha incongruência!

Constatamos que ao se sentirem intocáveis - marionetes nas mãos dos que os sustentam, até o limite do paroxismo - não percebem o papel grotesco e bizarro que desempenham! Faltam espelhos para se mirarem! Não percebem o ridículo, nem a dimensão de sua incompetência! Seus amigos, sempre elogiam seus desempenhos mirabolantes e irados, ao enfrentar com bravura mais um ataque dos inimigos, dos insensíveis, dos rancorosos, dos odiosos, dos... cidadãos!

No final, dizem uns para os outros: - fomos brilhantes! Conseguimos calar a fúria dos estúpidos ignorantes que não entendem nada de Patrimônio Cultural da Humanidade! Nós, sim, os eleitos, os experts, os sabidos, é que somos os verdadeiros preservacionistas e conservadores da História! O narcisismo dessa turma não tem tamanho; nem cabe neles! Só não é maior que o sonho máximo de desfilar pela Beija-flor, para milhões de corações globalizados!

Curiosidades exóticas a parte, destaca-se na trama - para completar a cena do teatro burlesco – os que fazem papel de bajuladores e admiradores incondicionais; capachos da ordem sinistra dos fantoches! Que alegre trupe de aduladores animados para a blague; num verdadeiro festival de galga, facécia e gracejos!

Os títeres de plantão, disfarçados de técnicos do ‘patrimônio’, na verdade labutam - entre suor e lágrimas insinceras - para ‘preservar’ os interesses dos grupos que investem economicamente no espaço social do Patrimônio Histórico e Cultural! Recebem seus dividendos para reproduzir e manter esses interesses, garantindo lucro e ganhos infindáveis! Douram seus discursos com loas, louvores e apologias ingênuas e românticas ao ‘patrimônio’ e a ‘memória’ – patrimônio e memória de quem?


Até as 12 horas desse mesmo dia, não foi pronunciada qualquer palavra sobre o não cumprimento da Lei Municipal nº 5.159 sancionada pelo Prefeito João Castelo, que institui a realização da malfadada "Semana Cultural do Bairro Praia Grande", cuja previsão é de ser realizada anualmente, no mês de Setembro, coincidindo com o aniversário de São Luís. A lei completou um ano de sanção, e seus objetivos de fortalecimento cultural, artístico, e, consequentemente, turísticos não foram provocados e estimulados, devido a não realização do evento. 

As charadas que lançam sobre a população, se auto-vangloriando de seus atos supostamente heróicos pela preservação histórico-cultural, servem para desviar o assunto; laudativos para boi dormir! Salamaleques, abracadabras, pirimpimpins, truques e mais truques, para deslocar a atenção e fugir do foco! Essa é a verdadeira função da ideologia! 


Ah! Sim, não sejamos injustos; não se pode esquecer: As lixeiras novas! 'Amanhã' já estarão sendo encaminhadas! Impressiona a capacidade líquida: Vinte litros de lixo! É o Maranhão Maravilha! Vamos, vale festejar!


De repente, indaga-se: - para que tanta pressa em hora errada, já se passaram mais de três anos de administração?! Relaxa: - Deixe que digam, deixe que falem. Deixa isso pra lá! Vem pra cá! O que é que tem! Eu não estou fazendo nada, você também!  (Deixa isso pra lá; de Jair Rodrigues)

Quais são as conseqüências dessas imposturas administrativas para a cidade? É só abrir os olhos e ver a paisagem! Soluções?! Quem sabe?! O negócio é cair na tentação, e aceitar o convite da promoção turística tão alardeada: pegar o primeiro voo do beija-flor direto para Milão, e dançar bunga-bunga na Itália; ou na Sapucaí! Mas, isso é só para aqueles que quebram o coco, mas não arrebentam a sapucaia!

* * * 

Centro Histórico de São Luís:
Situação, Abandono e Soluções (?!)




O evento ocorreu no dia 31/10 (segunda-feira), às 10h, 
“Plenário Estácio da Silveira” - Câmara Municipal de São Luís


O principal motivo que torna São Luís a capital "Patrimônio Cultural da Humanidade" são os extensos acervos arquitetônicos concentrados no Centro Histórico da Praia Grande, que a cada ano vem se degradando pela ausência de políticas públicas especificas de conservação. E que transformam o principal espaço histórico da cidade em um lugar esquecido e devastado pelo tempo.
É comum observar veículos de carga pesada pelas ruas do Centro Histórico, além do acesso livre de carros à serviço dos órgãos públicos, que em virtude da conservação do espaço histórico de São Luís não deveriam sequer estar transitando pelas vias estreitas do bairro.

Com intuito de discutir essa situação de completo abandono do Centro Histórico de São Luís, vereador Dr. Fernando Lima (PCdoB), convidou para participar do evento, a Superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Kátia Bogéa, representante da Fundação Municipal de Cultura, Euclides Moreira Neto, Secretário Municipal de Turismo, Livíomar Macatrão, Promotor de Justiça Meio Ambiente, Urbanismo e Patrimônio Cultural, Luís Fernando Barreto, Secretário Municipal de Urbanismo e Habitação, Domingos Brito, Secretário de Estado da Cultura, Luís Henrique Bulcão e o Coordenador Executivo do Movimento Nossa São Luís, Daniel Madorra. 


Na ocasião o parlamentar questionou as autoridades municipais pelo não cumprimento da Lei Municipal nº 5.159 sancionada pelo Prefeito João Castelo, que institui a realização "Semana Cultural do Bairro Praia Grande", cuja realização está prevista para ser realizada anualmente, no mês de Setembro, coincidindo com o aniversário de São Luís. A lei completa um ano de sanção, e seus objetivos de fortalecimento cultural, artístico, e, consequentemente, turísticos não foram provocados e estimulados, devido a não realização do evento.




* * * 

17 de junho de 2011

IDENTIDADE É VALOR (Para quem?)

Já há algum tempo, mais precisamente desde os anos sessenta do século XX, que nos deparamos com um verdadeiro surto de estudos sobre 'identidade'. Fato já apontado por autores como Pollack, Berger, Huxley, entre tantos outros. No entanto, surpreende, cada vez mais, que à essa obsessão pelo conceito não seja correspondente pesquisa cuidadosa sobre as origens e os alcances dessa mania identitária. É lastimável observar a proliferação de lugares-comuns sobre essa fixação temática. Estamos numa época difícil em que os consensos e as modas se instalam com força de verdade, ainda mais quando se têm a chancela de acadêmicos e diplomados de plantão. A expressão que abre essa reflexão, com o título em destaque - A IDENTIDADE É VALOR! - causa espécie. Seria surpreendente que, ao invés do óbvio, encontrássemos a expressão:  QUANTO CU$TA A IDENTIDADE! Isso, sim, seria algo a nos chamar atenção, pois é o que se tenta encobrir com aquela outra.
Afinal, 'identidade' tem valor de quê? De troca? De uso? Pra quem?
É a nova moeda no mercado? Qual o significado cultural, político e econômico dessa afirmação? O que é que se quer dizer com isso? 
É verdade que autores como Bauman têm frisado que a questão da 'identidade' adquire cada vez mais relevância num mundo em transformação vertiginosa, mas é também certo que investir sobre esse conceito com a dramaticidade que estamos assistindo - como panacéia para a salvação econômica de 'comunidades' - é criar ilusões temerárias. Reproduzir sem criticidade enunciados ideológicos primários, máximas do senso comum - num consenso produzido pela força da repetição - é algo que beira ao anedótico!
Todavia, o interessante a se destacar é que de novo voltamos ao A. Huxley do Admirável Mundo Novo! Os leitores desse blog, conhecedores da obra, devem lembrar da DIVISA DO ESTADO MUNDIAL: COMUNIDADE, IDENTIDADE E ESTABILIDADE. A sociedade tecno-científica busca aplicar essa equação a todo custo: custe o que custar! E tem muitos pseudo-pesquisadores que ignoram a dimensão crítica do que estão fazendo, sem saber que repetem lemas e enunciados de uma sociedade à deriva! É como se quisessem "esvaziar o oceano com um balde", num esforço romântico, mas obtuso! A ilusão de oferecer salvamento econômico investindo em 'identidade' é algo que merece ser tomado como objeto de reflexão crítica aprofundada; trata-se de nova mascarada. 
O que se percebe nesses empreendimentos de 'sistematizar os processos produtivos', com pretensões de pesquisa-ação, é um trabalho de apropriação dos recursos e acervos populares com vistas a se avaliar futuras repercussões e potencialidades econômicas, produzindo 'visibilidade' no mercado consumidor regional, nacional e, quiça, internacional. No meio desse processo se colocam os supostos 'mediadores' (outro nome para apropriadores), e no final da 'cadeia produtiva', os consumidores. Os produtores terão que se adequar aos 'modelos' pré-fabricados, impostos pelos 'mediadores' (agentes avançados de diversas instituições), para que seus produtos sejam oferecidos para os consumidores (aos quais 'vale' afinal, a 'representação' da 'identidade' comunitária simulada e fetichizada. Esse "projeto" ao cabo do tempo, se auto-designa, no âmbito das dominantes culturais, "projeto de inclusão social". Declara como objetivo central dar 'visibilidade', "no sentido stricto dessa palavra", promovendo e preservando, assim, a 'identidade'! Sobressai, nesse contexto, a retórica utilizada; vejamos a frase: "identificar – comunidades e pesquisadores – os valores do artesanato a partir do ponto de vista dos produtores e suas representações sobre o consumo de seus produtos"!
Os produtores vão 'identificar' os valores de seu próprio artesanato (!), a partir de seu 'ponto de vista'  e através de 'suas representações'!? O que isso significa? Será que tem algum sentido, ou é apenas uma frase de efeito? Pretende-se um álibi: 'fazer falar a comunidade'! O que os 'produtores' pensam ('representam') sobre o consumo de seus produtos! Qual o problema sociológico que existe nisso? Não é isso que vai ser feito; é outra coisa!
Nesse ponto específico, encontramos em José Jorge de Carvalho uma reflexão importante, que cabe bem aqui: "Fica em aberto ainda uma análise das motivações sociais, de classe e raciais subjacentes a esse movimento de apropriação completa de uma arte cultivada por outro estrato social e racial. Como hipótese inicial, é possível que esse novo canibalismo tenha surgido agora talvez como sintoma de que o fosso de classe e racial no Brasil cresceu ainda mais nas últimas décadas, tornando-se quase um esquema estrutural de segregação implícita". Canibalismo disfarçado de boas intenções... E se pode ir ainda mais longe: "... começam a surgir casos em que, fundindo seu papel de mediador com o de artista antropofágico, o pesquisador se apropria da arte performática que pesquisou e se mascara de artista nativo. Vários são os processos específicos de apropriação atualmente em curso"....
Pode ser que quem escreveu a referida resenha para a divulgação do lançamento do Projeto, não tenha entendido bem o texto, mas parece que essas frases devem ter sido citadas do próprio livro, pois não há muita imaginação na praça. O que está escrito é que a pesquisa pretende compreender as 'representações' e 'valores' que os 'produtores' atribuem ao consumo do que produzem! Essa é a pesquisa! A extensão é um trabalho para dar 'visibilidade' aos seus produtos no mercado consumidor!
Por fim, poderíamos acrescentar, citando o antropólogo J. J. de Carvalho, mais uma vez: "Sucede que a nova verdade que o pesquisador agora transmite já não é mais apenas uma verdade da política, da discriminação racial e étnica, da desigualdade de classes, do desprestígio cultural, mas também uma verdade de relações de mercado. E o pesquisador, operando dentro de uma paradoxal lógica samaritana de mais-valia, passa a crer que, ao conseguir algum retorno econômico para a comunidade, estará eticamente justificado para sair de seu lugar de cientista e servidor público e fazer um pacto com a indústria cultural".
Esse "Projeto" merece nossa atenção crítica! Na verdade, merece ser objeto de pesquisa sociológica!
Vamos aguardar mais detalhes sobre esse processo!
* * *
Observe-se o texto subliminar, que está conectado ao que não foi dito explicitamente, no texto do Projeto "Identidade é Valor"!

IDENTIDADE É VALOR 'AGREGADO'!

O design, a moda e a identidade pelas ruas

Na edição de ontem do Design Mais - projeto da Escola de Design da Unisinos que realiza palestras periódicas - o tema foi Design e Identidade: a moda como geradora de tendências e, para falar sobre isso, Julieta Puhl e Laureano Mon vieram diretamente da Argentina apresentar o seu Por la Calle.
A idéia desse projeto começou com uma percepção do par no ano de 2001, quando a Argentina enfrentava sua maior crise econômica. Naquele momento os argentinos procuraram por diferentes formas de sobreviver, buscavam por novas formas de expressão e começaram a gerar uma movimentação na cultura local. Havia a necessidade de dar uma “cara” para a Argentina. “Tuvo lugar el inicio de un cambio en las relaciones entre las personas y la percepción de los objetos que las rodeaban”
Então, Julieta e Laureano pensaram em fazer um mapa do design Argentino, de forma a descobrir qual era a identidade do país.
¿Qué rasgos geográficos influyen em nuestra creatividad?
O mapa de diseño argentino contou com 3 anos de pesquisa e reconhecimento de regiões argentinas e seus profissionais, reconhecimento fotográfico e DUZENTAS entrevistas em profundidade com designers. Nunca tive conhecimento de uma pesquisa qualitativa com tanta profundidade.
Ao final do mapeamento, os pesquisadores comprovaram que a Argentina tem sim sua identidade e gera tendências.
Mas a pesquisa não terminou, ela agregou outras funções e continua agora sob outro nome: Por La Calle. É como uma segunda fase, para descobrir novos designers e revisitar os já conhecidos procurando por mudanças em seu trabalho. O Por La Calle também faz circuitos di diseño, que são pontos de encontro, com mostras das principais criações dos estilistas locais.
Mais do que mostrar o projeto, Julieta e Laureano bateram no ponto de que a identidade é valor agregado. Segundo eles, o trabalho é 75% design próprio e 25% tendências.
Isso pode parecer simples ou óbvio para qualquer pessoa que pense em conceito de marca ou moda, mas sinceramente, quantas marcas você conhece que sabem direitinho qual é sua essência, suas principais características? Como se espera que uma marca que não se conhece possa conhecer (e até lidar) com o consumidor?
O posicionamento adequado frente a essa identidade é o que agrega valor para a marca junto ao público. Indico, para quem quiser compreender um pouco mais sobre isso, passar no blog da Juliana Laguna e também a olhar a apresentação que eu coloquei abaixo, na qual ela expõe alguns conceitos e exemplos de Vantagem Competitiva e Identidade de Marca.
Por fim, a palestra de ontem foi, acima de tudo, uma provocação. E nós, temos identidade?


Acesse:
http://www.fundacionprotejer.com/prensa-noticia.php?id=19666
http://socialmediaclub.org/blogs/social-media-observer/o-design-moda-e-identidade-pelas-ruas

12 de abril de 2011

MUSEU DAS RAÍZES FRANCESAS DE SÃO LUÍS!

Hoje, 12 de abril de 2011, ocorreu às 10 horas uma reunião entre o Conselho de Cultura do Município de São Luís/MA - encontro marcado pela FUNC-SL - e o Coordenador Executivo do Comitê Gestor das Comemorações do IV Centenário da Capital do Maranhão, Prof. Dr. Safiane Labidi da UFMA. 
No referido acontecimento foi comentado que no Palácio La Ravardiere, após o deslocamento da administração municipal para o prédio do antigo-BEM, na Rua do Egito, será montado um Museu das Raízes Francesas de São Luís!
O coordenador executivo do Comitê Executivo Organizador do IV Centenário terá ideia do que está falando? Alguém tem ideia do que consiste um projeto museológico das 'raízes francesas' de São Luís?
Pode-se até aceitar a possibilidade de que no 8 de setembro de 1612 comemore-se os 400 anos das cerimônias consagradas pelos Padres Capuchinhos: missa, procissão, colocação e adoração da Santa Cruz. Mas tais ritos constituíram liturgia católica, tão somente; não possuíram qualquer conotação política e, menos ainda, intenção de fundação de uma cidade. Como se sabe, La Ravardière, considerado hoje 'fundador' nem participou daquelas solenidades católicas; pelo simples fato de ser protestante.
A Fundação do núcleo urbano original de São Luís foi obra de Jerônimo de Albuquerque e disso não se pode ter dúvidas. Quanto a possível escolha mítica dos heróis fundadores simbólicos da colonização européia da ilha de São Luís - atribuindo-se tal feito aos franceses - pode ser considerado uma versão mitológica de construção recente, baseada na crença de que a missa do dia 8 de setembro de 1612, teria marcado o começo de um história de colonização cristã na ilha de Upaon-Açu.
Todavia, levar a cabo a possibilidade de criar um Museu das Raízes Francesas da cidade de São Luís, é cair no perigoso campo do anedótico. Vai exigir muita imaginação do museólogo contratado!   
Acreditamos que seria bom o Coodernador executivo do CEO ter uma assessoria competente de historiadores e sociólogos consultores, para que tais propostas sofressem o crivo da razoabilidade e da ponderação. Forjar uma museologia alegórica e fantasiosa, é uma extravagância que ofende o bom senso. Tal proposta deve ter sido sugerida pelo trade turístico que assessora e dá os contornos principais do Projeto do IV Centenário. É claro que tal proposta visa aplacar a vergonha de termos a maioria dos turistas europeus, de origem francesa, atraídos pela informação de que São Luís seja uma cidade 'francesa' no Brasil. Quando tais cidadãos chegam à cidade, se espantam com a total falta de correspondência com a realidade! São Luís é uma bela cidade cuja origem do núcleo urbano é lusitana!
Oxalá, tal projeto esdrúxulo não seja levado à frente! Caso o Palácio 'La Ravardiére' seja museologizado, que seja alí construído um Museu da Cidade que elabore a história da cidade e suas mitologias, mas que não perpetue uma versão forjada dos fatos históricos; já por demais constatados e irrefutados pela historiografia!  

12 de dezembro de 2009

12 ANOS DE PATRIMÔNIO CULTURAL DA HUMANIDADE: SÃO LUÍS/MA


Por ocasião das comemorações dos 12 anos de inscrição do Centro Antigo de São Luís na Lista do Patrimônio Cultural da Humanidade (UNESCO), parece justo elaborar algumas breves reflexões sobre o valor dessa data. O Patrimônio Histórico e Cultural da cidade já recebeu diversas intervenções de engenharia e arquitetura com gastos vultosos, num lugar em que esses investimentos só têm beneficiado economicamente poucas pessoas e grupos (especialmente estrangeiros e proprietários dos imóveis). É lógico que se poderia dizer que as pessoas e grupos que freqüentam o local também são beneficiários, mas convenhamos só nos tratam como consumidores e não como cidadãos – aliás, raras vezes se vai ao Centro ‘Histórico’ (Projeto Reviver), para a admiração ou contemplação de algum bem cultural ou artístico, que são raríssimos e precários; comumente se vai para beber, comer, passear e namorar... o que se faz na medida do possível. Todavia, permanecem perguntas difíceis de responder, por exemplo: por que há tanta aceitação e consenso nessas práticas de ‘preservação’? Por que todo mundo concorda com essas práticas de patrimonialização vigentes? Que consenso é esse, qual a sua natureza sociológica? Esses questionamentos devem ser feitos sem qualquer juízo de valor, isto é, não se trata de a priori considerar certo ou errado, positivo ou negativo, mas, de interrogar, problematizar – o que também é um direito de cidadania. Assim, continuamos a refletir e a indagar: como se adquiriu tanta legitimidade, tanta unanimidade nessas práticas e discursos? Não há uma voz sequer que questione isso? Como pode toda contestação marginalizar-se e os contrários e os opostos desapareceram de cena? Como se conseguiu isso, quais os custos e benefícios disso? Onde são aprovados esses projetos de intervenção urbana?
Evidentemente que todo esse processo está sujeito a intercessão de diferentes representatividades e significações; acerca do valor cultural e histórico dessas intervenções de engenharia e arquitetura (urbanismo). Mas, pergunta-se: e a critica à política de Revitalização dos Centros Antigos ‘Históricos’ em nosso país, o que aconteceu com ela? Algum dia houve? Sabemos que hoje existe uma poderosa indústria por trás desse consenso todo: o turismo. E a hipótese mais certa é que essa máquina se move pela força da ‘Ideologia do Desenvolvimento’ – promessa requentada a todo ano pelos empreiteiros, empresários e industriais do país: o ‘turismo’ será a redenção econômica do Nordeste e dos pobres desse país...
Mas, afinal qual a representatividade, ou legitimidade, desses processos de patrimonialização na sociedade atual? Por que a figura do ‘Patrimônio Cultural’ justifica-se plena e unanimemente através desses tipos de intervenções e ‘enobrecimentos’ para o consumo das novas classes médias? Só a ‘turistificação’ é a resposta? Por que se aceita com tanta facilidade o esquecimento do ‘humano’ e do ‘imaterial’ nesses empreendimentos? Por que tanta fixação nos cenários físicos? Algumas vezes aparece, acolá, um projeto de ‘bem cultural imaterial’, mais, ali, um ‘Centro Cultural’, mais, aqui, um ‘Museu’ de alguma coisa, mas, todos já sabem, são apenas mais um álibi, nada mais...
Parece-nos, ao contrário, que um ‘Olhar Sociológico’ – que provoca tanta resistência – pode potencializar uma abordagem verdadeiramente crítica. É uma esperança de podermos enfim perscrutar as contradições desse processo. Porém, trata-se de uma questão metodológica geralmente esquecida e ocultada, até mesmo nas Universidades; e certamente isso é devido a força poderosa dos consensos (afinal os acadêmicos também querem a sua ‘mais-valia’). Assim, dissemina-se o seguinte: pouco se ‘ouve’, efetivamente, os discursos dos agentes públicos e privados, e pouco se ‘vê’, efetivamente, o que realmente fazem: carecemos de uma sócio-análise profunda.
Então, parece certo, o núcleo problematizador e orientador de nossas pesquisas deveria ser: como são legitimadas essas práticas sociais de patrimonialização na atualidade? Como se formam esses consensos e unanimidades? Como esses enunciados foram potencializados de tal forma que hoje já não sofrem qualquer crítica ou avaliação relativizadora? Para os pesquisadores e estudantes: é preciso fazê-los ‘ver’ e ‘ouvir’ essas ‘unidades discursivas’; mostrar-lhes que essas 'estruturas significativas' podem ser isoladas, e aí, sim, se tomar uma perspectiva crítica em relação a essas práticas discursivas dominantes. Como se sabe, o consumo para a classe média tende a se intensificar - de modo sem precedentes na sociedade brasileira - tornando-se esse ‘objeto sociológico’, objeto privilegiado de estudo para os que querem refletir e pensar com os ‘olhos livres’. É um fato sociológico importante estudar hoje o ‘turismo cultural’ e a indústria que tem transformado toda a cultura em mercadoria valiosa e cobiçada. Mas isso não deve ser tratado e analisado apenas pelos 'economistas da cultura'. É preciso formar estudantes e pesquisadores livres para que possam investigar e pesquisar livremente, sobre o poder do agenciamento da cultura e do patrimônio - processo que vai ser inaugurado logo, e intensificado, com os trabalhos de promoção econômica e política (engenharia cultural e política) para a realização da Copa do Mundo de Futebol em 2014 e as Olimpíadas em 2016. É preciso formar estudantes e pesquisadores que possam, através de uma arqueologia, e/ou genealogia, sensível e crítica, avaliar as práticas e discursos (enunciados) em nome da conservação, preservação e promoção cultural em nosso país. Trabalho que é imprescindível e urgente: trata-se de uma verdadeira sociologia da emergência cultural!

28 de janeiro de 2009

Teatro das Memórias

Em artigo enviado ao JP, o professor universitário e pesquisador Alexandre Fernandes Corrêa afirmou que o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) se apropriou indevidamente do nome de um projeto que ele coordena na Ufma - "Teatro das memórias". "Como podem essas pessoas e instituições se utilizarem de impostos e verbas públicas em nome desses bens valiosos da população brasileira e maranhense, se não sabem respeitar e cumprir com as leis vigentes, sobre os usos e apropriações das idéias, projetos e valores de outras pessoas, grupos e comunidades?", questiona Corrêa. Ele sugere que, "em nome do respeito às distinções entre nossas práticas e atitudes, se retire o nome 'Teatro das Memórias' do 'projeto' (re)lançado no dia 4 de dezembro pelo Iphan". Veja o artigo:

Teatro das memórias: cidadania e direitos culturais
Veja Artigo:
http://www.jornalpequeno.com.br/2009/1/25/Pagina97244.htm
Veja Também:
http://www.newstin.com.pt/tag/pt/100270498

Veja Vídeo Produzido pelo IPHAN:
http://www.youtube.com/watch?v=FseVVSkKb1I

POR ALEXANDRE FERNANDES CORRÊA*
alexandre.correa@pq.cnpq.br 

21 de janeiro de 2009

A DIALÉTICA DA PERMANÊNCIA DO PASSADO

Foto do Fotógrafo Mirim Bruno de Lorenzo
A DIALÉTICA DA PERMANÊNCIA DO PASSADO: Crítica ao Modelo de Patrimonialização Vigente

Uma questão recorrente vira e mexe retorna a cena. E nos diários e periódicos de todas as cidades brasileiras, com centros urbanos antigos, observamos retornar com frequência o problema do que fazer com as sobras do passado; quais os usos do passado no mundo de hoje. É uma preocupação sedimentada e desenvolvida por diversos estudiosos. Mas é uma interrogação que se alastrou e aprofundou sobremaneira após a II Guerra Mundial. Atualmente a UNESCO tem levado a frente campanhas de grande repercussão planetária; das quais se destaca as Listas de dos Patrimônios Naturais e Culturais da Humanidade.
Entre nós temos nomes de enorme importância cultural, do porte de Gilberto Freyre, Mario de Andrade, Aloisio Magalhães e outros tantos; além do já cristalizado e estabelecido Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), que tem mais de 70 anos de atividade. Todavia, sempre persiste e retorna a indagação incômoda: o que fazer com os vestígios do mundo tradicional e antigo que tem desmoronado e se arruinado nos centros ditos históricos das grandes cidades brasileiras e latino-americanas?
São Luís não poderia deixar de fugir a essa regra retórica e ritual hipermoderna, qual seja, a vertigem da perda dos traços arquitetônicos e históricos, tanto materiais quanto intangíveis e simbólicos: há uma crescente sensação de obsolescência das coisas, dos objetos, dos modos de viver, dos fazeres e dos saberes...
Na última quinta-feira desse mês de janeiro, vimos a manchete de um jornal local estampar: "Restaurando os Prédios Alheios" (Vida Urbana, O Imparcial, 15/01). Nessa reportagem a jornalista revela espanto com o fato de o poder público estar investindo milhões de reais em prédios de particulares. E é mesmo de espantar toda gente! Por que esse esforço e dispêndio milionário em gastar dinheiro público para manter um cenário histórico cada vez mais fantasmagórico, quase abandonado - simbolizando o fracaso de um modelo equívoco - se a cidade tem bairros populosos que não recebem e nem têm insumos e equipamentos básicos para manter-se com níveis decentes de qualidde de vida? O que justifica tal investimento: a nostalgia dos tempos de glória e de fortuna das classes que dominavam o estado nos séculos passados?
A superintendência regional do IPHAN, interpelada sobre essa idiossincrasia espantosa respondeu: "- A impressão que dá é que o maranhense não tem consciência de que tem um tesouro nas mãos e que precisa cuidar dele". Eis uma visão simplificada e ingênua do problema sócio-cultural em voga! Coloca-se sempre a culpa na suposta 'insensibilidade estética e artística da população' - a mesma que preserva a cultura popular e o folclore, como poucas no mundo; curiosamente, culpa-se a população pela sua suposta 'ignorância', ao lançar os prédios - considerados verdadeiros 'tesouros arquitetônicos' do passado - na ruína e no abadono. A superintendência não se pergunta: por que essa mesma população que se dedica a preservar e manter viva as suas tradições artísticas, como o Bumba Boi, o Tambor de Crioula, o Tambor de Mina, entre outras, teria esse comportamente desprezível em relação aos prédios históricos. Será o mesmo maranhense? Lógico que não: os proprietários desses prédios não são os mesmos maranhenses que preservam a cultura popular e o folclore; são donos de prédios que se beneficiarão dos investimentos públicos aprovados pela Superintendência regional do patrimônio federal... Só quem faz pesquisa pode responder a tais questões pertubadoras e pode encontrar a lógica sócio-cultural subjacente a esses comportamentos e práticas...

A população 'ignorante' paga duas vezes, pela sua culpada 'ignorância' denunciada por um agente público em pleno jornal diário - em flagrante desrespeito ao espírito público geral - e agora pagará também, e ainda muito mais, ao ter que ver e aceitar o dinheiro público ser gasto em prédios particulares; dinheiro que poderia ser aplicado em benefício da urbanização de diversos bairros da cidade: especialmente em saneamento e saúde pública. Há algo mais importante que o 'patrimônio' representado na saúde de um povo? Por que o patrimônio histórico nas mãos de particulares é mais valioso, 'é um tesouro', maior que o saneamento básico nos bairros da cidade?
É preciso que estas pessoas enfrentem a seguinte questão: por que é que a população não dá valor a esses cenários históricos do passado? Por ignorância? Essa é a resposta? Essas pessoas 'sabidas', com tanta 'sensibilidade estética' deveríam se perguntar se a população concorda com esse modelo de patrimonialização, esses investimentos vultuosos de mais de duas décadas, que só tem beneficiado uns poucos individuos e grupos nessa área da cidade. É preciso que nós passemos a enfrentar e a questionar esse modelo arrogante de patrimonialização, que de democrático não terá nunca qualquer inspiração. Devemos nos interrogar, e fazer pesquisas, para encontrar um outro modelo que responda aos anseios da população, que precisa acreditar que essas políticas são em seu benefício; o que não parece ser verdade, ao menos do que se expressa nessa ideologia simplificadora. Numa cidade tão carente de diversos equipamentos e insumos básicos, é um luxo satânico manter esse tipo de política patrimonialista que só beneficia os proprietários desses prédios, valorizando-os para a especulação imobiliária futura.
Porém, nós sabemos que estes 'agentes públicos' de plantão, não pensam nos interesses gerais da cidadania; pensam em dar respostas aos interesses dos que os colocaram nessa posição e lugar. Não fazem pesquisas, não desenvolvem trabalhos autênticos de empoderamento da população que reside nesses bairros 'históricos', e mais, ainda se apropriam das ações e dos projetos de outras instituições sérias; vide o caso vexatório do Projeto de Ação Cultural Teatro das Memórias, da Universidade Federal do Maranhão - com o nome indevidamente apropriado por essas mesmas pessoas.

Enquanto esse modelo imperar continuarão culpando a suposta 'ignorância' da populaçao e reproduzindo os interesses dos proprietários desses prédios.
É preciso que se dê um basta a essas práticas que favorecem os que vão especular com a valorização imobiliária desses espaços sociais. Isso é certo: haverá investimento com dinheiro público que só beneficiará esses proprietários, que depois de garantidos seus beneficios venderão esses prédios para os estrangeiros! A população verá seus 'tesouros' salvos, mas agora entregues aos 'gringos', como se diz: ficará enfim sem seus 'tesouros'!
Os grupos de poder e decisão da cidade sabem difundir e defender seus interesses. O que é estranho é a inércia dos agentes públicos como os estabelecidos nos Ministérios Públicos Estadual e Federal, as Promotorias do Patrimônio e do Meio Ambiente: por que não promovem uma investigação contra esses outros 'agentes públicos', títeres instalados no escalão federal...
É evidente que essa política de investimentos só serve para enriquecer um pequeno grupo 'sabidos': empreiteiros e aventureiros estrangeiros...
Por que não se faz pesquisa universitária nesses espaços? Por que se tem tanta dificuldade em estabelecer políticas culturais democráticas e participativas nesses centros históricos? Por que não se cria um Plano Diretor para o Centro Histórico e se dá condições de participação democrática nas decisões sobre investimento nesse espaço social? Por que esses projetos mirabolantes não passam pelos Conselhos de Cultura e Patrimônio?
Eh! Meus concidadãos: falta mais democracia e mais pesquisa social.

Alexandre F. Corrêa - UFMA
alex@ufma.br.
alexandre.correa@pq.cnpq.br

* * *

No mesmo tom:



Governadora Roseana Sarney é alvo de protesto de bispos do Nordeste


SEG, 21 DE FEVEREIRO DE 2011 14:56

Os bispos do Regional Nordeste 5 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, distribuíram, neste domingo, nas igrejas do Maranhão, uma forte nota contra o governo estadual e os grupos de políticos e de empresários que sustentam a mais de quarenta anos a oligarquia Sarney.
“Está na hora de se fazer uma inversão de prioridades e valores também em relação ao papel do Estado e de seus representantes”, nesta frase os bispos de Bacabal, Zé Doca, Balsas, Grajaú, Imperatriz, Carolina, Brejo, Pinheiro, Coroatá, Viana, Caxias e São Luís sintetizam a rejeição e determinação de enfrentar os usurpadores do povo maranhense.
O texto foi construído entre os dias 12 e 14, no encontro dos bispos da Regional Nordeste 5, realizada na cidade de Carolina, trazendo a radical cobrança de mudança na relação do governo com a população. Pelo conteúdo os bispos demonstram a insatisfação do clero com o governo de Roseana Sarney.
“A história do Brasil – na qual se insere a história do Maranhão – tem sido marcada pela apropriação por parte de pequenos grupos, mediantes influências políticas e corrupção ativa daquilo que pertence a todos. Esses pequenos grupos fazem do bem público um patrimônio pessoal”. O longo texto ainda não foi publicado no site da CNBB, estamos no aguardo para postarmos. Este talvez seja o início de uma mobilização da igreja católica contra o grupo Sarney.

Para a oligarquia talvez seja o fim dos tempos.

Assinam a nota: 

Armando Martín Gutierrez – bispo de Bacabal
Carlo Ellena – bispo de Zé Doca
Enemésio Ângelo Lazzaris – bispo de Balsas
Franco Cuter – bispo de Grajaú
Gilberto Pastana de Oliveira – bispo de Imperatriz e presidente do Regional NE-5
Henrique Johannpoetter – bispo emérito de Bacabal
José Belisário da Silva – arcebispo de São Luís do Maranhão
José Soares Filho – bispo de Carolina
José Valdeci Santos Mendes – bispo de Brejo
Ricardo Pedro Paglia – bispo de Pinheiro
Sebastião Bandeira Coêlho – bispo de Coroatá
Sebastião Lima Duarte – bispo de Viana
Vilsom Basso – bispo de Caxias
Xavier Gilles de Maupeou d’Ableiges – bispo emérito de Viana

Por Felipe Klamt

8 de dezembro de 2008

TEATRO DAS MEMÓRIAS


TEATRO DAS MEMÓRIAS: Cidadania e direitos.

Alexandre Fernandes Corrêa - UFMA
alex@ufma.br; alexandre.correa@pq.cnpq.br

Vivemos em tempos difíceis! Mas, não será por isso que deixaremos de tentar manter algum princípio ético de conduta: não vale tudo, a todo custo! De nossa parte é cada vez mais urgente observarmos as atuais contradições entre o dizer e o fazer, em nossa sociedade. Hoje mais do que nunca impera o velho lema patriarcal: “- Faça o que eu digo, não faça o que eu faço!”.
Neste início de dezembro, aqui em São Luís, algo inesperado aconteceu. Pessoas e instituições, em nome da “educação patrimonial” cometeram atos que merecem o crivo e avaliação equilibrada dos que ainda têm um pouco de noção de justiça e sabem manter alguma integridade nas ações e nas idéias. Trata-se do (re-)lançamento do Projeto chamado de Teatro das Memórias. Lamentável acontecimento que não promove a “educação” nem ensina sobre o “patrimônio”. Por quê? Ora, como um grupo de pessoas e instituições que dizem que estão “preservando” a “cultura” e o “patrimônio” na cidade, através de programas de “educação” para crianças e jovens, poderia estar cometendo o pior de todos os equívocos em termos do respeito aos direitos, a propriedade intelectual e a cidadania?
O Grupo de Pesquisas e Estudos Culturais da UFMA, desde 2004, vem promovendo pesquisas e projetos de extensão universitária na ilha de São Luís, sob o título de Projeto de Ação Cultural Teatro das Memórias. A Companhia Vale do Rio Doce, a Fundação Municipal do Patrimônio Histórico (FMPH) e a 3aSR do IPHAN, desde a mesma data promoveram um Projeto com o nome de “Viver o Desterro”; que logo abandonaram assim que se viu que não levava a lugar algum, a não ser promover os seus diretores e coordenadores de plantão. A comunidade do Desterro, através de sua Associação de Moradores, demandou, então, ao Grupo de Pesquisas e Estudos Culturais (GPEC) da UFMA a continuidade de uma ação sincera e comprometida com a comunidade. E assim foi feito. Formulamos e elaboramos o Projeto Políticas do Patrimônio e da Memória (UFMA-2004), depois incorporado ao Projeto Teatro das Memórias, parte integrante do Projeto maior “TEATRO DAS MEMÓRIAS SOCIAIS E DO PATRIMÔNIO BIOCULTURAL: Pesquisa Antropológica na Região Metropolitana de São Luís”; que é um projeto de pesquisa e extensão universitária aprovado no CONSEPE (Resolução nº. 463/2006 – 31.05.2006 – UFMA/CNPq). Desses trabalhos esse pesquisador, que agora escreve esse artigo, jamais recebeu qualquer remuneração ou verba pública.
Assim, causa espécie e profunda indignação assistirmos pessoas e instituições renomadas cometendo atos que atentam contra a própria lição pedagógica que julgam difundir com o coração cheio de “boas intenções”. Lamentável comportamento de pessoas e instituições que, sem o devido cuidado, estão destruindo os princípios da cidadania e do direito que julgam estar defendendo e promovendo. São contradições censuráveis em pessoas e instituições que enganadas nas idéias e na sua retórica, revelam nas suas práticas que, na verdade, não têm noção do que fazem. Diria alguém: “Perdoe-os, pois não sabem o que fazem”!
Todavia, como podem continuar agindo, em nome da “educação” e do “patrimônio”, pessoas e instituições que não sabem “preservar” a ética, o patrimônio, a memória, a cultura, etc, nas suas ações mais cotidianas? Como podem essas pessoas e instituições se utilizarem de impostos e verbas públicas em nome desses bens valiosos da população brasileira e maranhense, se não sabem respeitar e cumprir com as leis vigentes, sobre os usos e apropriações das idéias, projetos e valores de outras pessoas, grupos e comunidades?
Nós do Grupo de Pesquisa e Estudos Culturais (GPEC) pensamos bastante em como iríamos agir contra essas atitudes de má fé e lesa dignidade. Depois de refletirmos achamos por bem que inicialmente não iremos contestar na justiça essas pessoas e instituições, e que vamos apenas nos manifestar à sociedade na intenção de sugerir que, em nome do respeito às distinções entre nossas práticas e atitudes, se retire o nome “Teatro das Memórias” do “projeto” (re)lançado nesse dia quatro de dezembro. Desejamos que esse grupo nomeie suas práticas e defina seus conceitos e métodos a partir de seu próprio trabalho, deixando de se apropriar passivamente das idéias, práticas e valores construídos por pessoas, grupos e comunidades. Para promover o patrimônio cultural e uma suposta “educação patrimonial” supõe-se que esse grupo já esteja consciente e já tenha aprendido a respeitar os valores e idéias das outras pessoas e grupos. A falta de reconhecimento do trabalho de pesquisa e das ações culturais promovidas por anos a fio, negados e apropriados por um grupo sem lastro científico e político, espelha bem a falta de noção de preservação dos verdadeiros valores patrimoniais dos grupos, instituições e pessoas.
São quatro anos de trabalho de pesquisa e extensão, com conceitos e métodos completamente distintos dos que estão sendo praticados e executados por esse grupo de pessoas. O Projeto original “Teatro das Memórias” elaborado desde 2004, emprega conceitos e métodos desenvolvidos a partir da leitura e estudos em vasta bibliografia, entre diversas dissertações e teses. A principal referência teórica que funda a própria idéia de investimento na gestão democrática e política do ‘teatro das memórias’ sociais é a obra do sociólogo francês Henri Pierre Jeudy – jamais referido por essas pessoas que agora se dizem continuadoras desse trabalho de pesquisa e extensão univerisitária original. O GPEC, sob a coordenação desse pesquisador, criou um método específico de ação cultural a partir desses estudos teóricos e empíricos. Desse modo, trata-se de um trabalho intelectual com autoria e método, que está sendo usado e deturpado indevidamente.
Através desse documento escrito em forma de artigo faremos publicar nos veículos de comunicação da cidade, do Estado e do país, contestando publicamente essas pessoas e instituições contra o uso indevido do nome e do trabalho de pesquisa da Universidade. Divulgaremos artigos críticos em nome dos direitos difusos e coletivos, das comunidades e dos grupos, das universidades e instituições de preservação do patrimônio biocultural, aos quais estamos filiados e seguimos seus princípios. Nosso Grupo de Pesquisas e Estudos Culturais é filiado a Associação Brasileira de Antropologia, ao ICOMOS-BR, ao Fórum e Grupo de Trabalho do Patrimônio Cultural da ABA, ao Observatório Social, ao Conselho de Cultura do Estado do Maranhão, etc., nos quais continuaremos a defender a dignidade e o respeito aos valores culturais e patrimoniais depositados nas memórias sociais da população maranhense e brasileira.
Nosso compromisso é com uma política cultural democrática e verdadeiramente autônoma; que nos prepare para viver e gerir uma vida melhor nessa cidade. Cidade e Estado que ainda precisam encontrar um destino mais democrático e justo. Constatamos, então, que ao perpetuarem essas práticas despóticas, autoritárias e perversas, como essas que agora denunciamos, essas instituições e pessoas se tornaram o maior obstáculo que hoje temos que enfrentar para inaugurar melhores tempos em nossa cidade e Estado.
Nosso apelo é que essas pessoas e instituições parem com estas atitudes cindidas e perversas – presas as raízes mais reacionárias do patriarcalismo colonial. Desejamos que essas pessoas e instituições deixem de continuar mantendo fundo o fosso que separa as suas ações de sua retórica; do que fazem e do que dizem.

EM TEMPO: Projeto aprovado pelo EDITAL Universal CNPq-2008.
alexandre.correa@pq.cnpq.br

Atigo Publicado no Jornal Pequeno, Domingo, 25 de Janeiro de 2009.
http://www.jornalpequeno.com.br/2009/1/25/Pagina97244.htm


TEATRO DAS MEMÓRIAS: cidadania e direitos culturais

Veja Artigo:

Rastros de Apropriação do Projeto ao Port-Fólio do IPHAN.


Veja Vídeo Produzido pelo IPHAN:

Site em Língua Russa:

Site Vídeos Brasil:

Livro Produzido pelo IPHAN, com nome do Projeto:
Portfólio do DESIGN OCABIO:

OBSERVAÇÃO:
Em nenhum momento faz-se alusáo ao fato de que o Projeto Teatro das Memórias foi criado pelo Grupo de Pesquisa e Estduso Culturais da UFMA, coordenado pelo Prof. Dr. Alexandre Fernandes Corrêa.