Edital MCT/CNPQ 14/2008 Universal Processo 470333/2008-1



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11 de agosto de 2012

Elogio da Traição (São Luís 400 anos)


O PASSADO DEVE SERVIR PARA ALGUMA COISA

Alexandre Fernandes Corrêa

Os leitores que hoje possuem mais de 40 anos já devem ter ouvido falar da peça de teatro chamada Calabar, escrita por Rui Guerra e Chico Buarque e dirigida por Fernando Peixoto em 1973. Devido a censura da ditadura militar só foi encenada ao público em 1980. A lembrança desse texto teatral, nesse momento de debates e discussões, sobre a fundação francesa ou portuguesa da cidade de São Luís, nos parece oportuna. Os debates sobre o tema das origens míticas ou históricas da capital maranhense têm adquirido sobressaltos um tanto dramáticos; com partidários apaixonados dividindo-se entre duas posições divergentes: de um lado, a defesa glamourosa dos fundadores franceses (francofilia); de outro lado, os mais tímidos defensores dos portugueses (lusofilia). 
O curioso é que nesse drama semelhanças há com a história de Recife e Olinda, estudadas por nós quando pesquisamos em Pernambuco no final dos anos de 1980. Ao realizar um trabalho de pesquisa antropológico nos famosos Montes Guararapes - nos quais se realizaram as memoráveis batalhas pela expulsão dos holandeses - pudemos constatar que ainda há reminiscências profundas do mesmo conflito entre duas versões de fundação e identificação histórico-cultural. Em Pernambuco encontramos também um dilema parecido, tratado no fundo da peça teatral referida acima. Os autores do espetáculo perguntavam a todos: a qual senhor europeu o Brasil deveria servir? O Brasil - projeto de futura luta nativista pela Independência - teria sido melhor colonizado por holandeses do que pelos portugueses?
No ensaio Festim Barroco (Corrêa, [1993] 2008), nós traçamos algumas considerações críticas sobre as versões histórico-culturais desse conflito, considerando suas conversões míticas e simbólicas mais sobressalentes. Creio que podemos então tirar algumas lições desse trabalho, através do exercício da mitanálise, tomando foco agora sobre os nossos atuais estudos dos mitos e dos ritos de fundação da capital ludovicense.
A personagem histórica Domingos Fernandes Calabar foi utilizado por Chico Buarque e Rui Guerra, no início da década de 1970, como agente de crítica ao momento pelo qual passava o nosso país sob o jugo severo do regime ditatorial militar - período em que eram comuns os usos das metáforas nas produções artísticas a fim de, por um lado, burlar a censura rigorosa do sistema e, por outro, denunciar a situação atual. Na peça encontramos distorções históricas importantes, com intuito deliberado de causar espécie de inquietação, com muita força dramática; licenças mais que compreensíveis naquele contexto. Quando aqui forçamos alguma comparação com o que foi tratado nessa obra, é no sentido de provocar uma movimentação no nosso imaginário social sobre a questão em voga. Afinal, realmente há semelhanças que nos suscitam comparações intrigantes. Em Pernambuco, ainda hoje é comum ouvirmos elogios as possibilidades de maior desenvolvimento de Recife e Olinda, caso os holandeses continuassem como senhores, ao invés dos lusitanos ou ibéricos. Invocam-se as ciências e as artes promovidas pelo "grande" Maurício de Nassau; o esclarecimento dos empreendedores batavos e judeus, em harmonia empresarial; e muitas outras vantagens modernistas e capitalísticas que os holandeses teriam sobre os atrasados, semi-feudais e barrocos portugueses ou espanhóis. 
Em São Luís parece-nos que o ‘elogio da traição’ às origens lusitanas e ibéricas graça com força, ao ponto de ser oficializada a sua fundação por franceses. Contudo, em Pernambuco jamais essa traição ganhou apoio institucional; aliás, naquele estado da federação as Forças Armadas celebram as suas origens, fincadas nas batalhas dos Montes Guararapes, em rituais de rememoração teatralizados, com grande pompa e ostentação espetacular; comemorando a expulsão dos invasores holandeses. Todavia, sempre que pensamos nessas celeumas históricas, fantasiando sobre as faustosas vantagens que poderíamos obter caso fossemos colonizados por franceses ou holandeses, lembramos dos nossos países de fronteira ao norte: as Guianas! Parece que nenhum desses três países colonizados por europeus não-ibéricos são exemplos de alto desenvolvimento nos trópicos. Os defensores de “senhores melhores e mais esclarecidos” se esquecem de visitar os índices de desenvolvimento humano (IDH) desses países fronteiriços colonizados, e alguns deles, ainda submetidos, as três metrópoles europeias tão exaltadas pelos anti-ibéricos: Inglaterra, França e Holanda!
Voltando para a peça teatral, no meio do ATO I, no diálogo entre Mathias Albuquerque (ex-governador de Pernambuco) e a personagem que representa o Holandês, diz-se: “No fim das contas o passado deve servir para alguma coisa...” (2006, p. 45). E como tem servido ultimamente! Pode parecer irônico, mas em São Luís ocorre um fenômeno interessante; enquanto em Recife e Olinda (Pernambuco) se expressa sorrateiramente, e as vezes bem queixosamente, a infelicidade de termos caído "de novo" nas mãos ibéricas, no período designado de ‘Restauração’ (que começa com a expulsão dos holandeses em São Luís!); entre os maranhenses, desde 1912, ao se escolher o ‘pai’ fundador, deu-se atestado ao gaulês. No nosso pacto edípico firmado no começo do século XX, as elites hegemônicas entronizaram os francos como os "verdadeiros" fundadores da cidade e da capital do Estado do Maranhão e Grão Pará. A ‘traição’ foi legitimada e, sem resistências contundentes, percorreu o tempo em celebrações cada vez mais espetaculares, culminando com a apoteótica consagração em 1962! Agora, em 2012, prenuncia-se nova espetacular encenação cívica! Dessa vez, ao que parece, com algumas resistências de membros de academias científicas e de universidades públicas, engrossando as falanges dos descontentes com essa ‘traição’ ou “mistificação francófila”: não querem deixar passar para o século XXI tal atentado aos princípios da historiografia e da verdade histórica.
Reler a peça Calabar: o Elogio da Traição, hoje, é um exercício para o espírito que fará muito bem a todos; movimentando nossa musculatura ética e sacudindo nossa mente das poerias e teias de aranha das velhas e costumeiras ideias, repetidas ad nauseam. Trata-se de uma obra inteligente e sutil que coloca em foco; como escreveu Fernando Peixoto: “o comportamento dos homens entre si, observados numa determinada circunstância histórica. Essa postura traz o texto até nossos dias”. 
Sem dúvida, diga-se de passagem, tal objetivo é alcançado com maestria. E vemos até que, no que tange aos entrelaçamentos dos mitos individual e coletivo, comentados em outro artigo nosso, um dos autores da obra traz no nome a marca desse enlaçamento mitológico. O que nos faz relembrar de Mircea Eliade, quando escreveu: “É por isso que o inconsciente apresenta a estrutura de uma mitologia privada. Podemos ir ainda mais longe e afirmar não só que o inconsciente é ‘mitológico’, mas também que alguns dos seus conteúdos estão carregados de valores cósmicos, isto é, que eles refletem as modalidades, os processos e o destino da vida e da matéria viva. Podemos até dizer que o único contato real do homem moderno com a sacralidade cósmica se efetua através do inconsciente, quer se trate dos seus sonhos e da sua vida imaginária, quer das criações que surgem do inconsciente (poesia, jogos, espetáculos, etc.)” (Eliade, 2000, p. 68-69). Citação que cai perfeitamente no caso, tal como uma mão na luva! 
Vimos analisando os mitos, os ritos, as versões históricas e historiográficas, e os discursos de fundação da cidade de São Luís, há alguns anos, e consideramos que nossa contribuição torna-se significativa e útil na medida em que pretende alargar nossos horizontes para além das obviedades e da dimensão anedótica. Nessa trilha analisamos os contornos desses debates e pontuamos aspectos muitas vezes encobertos e negligenciados; afinal, o inconsciente social é dinâmico e não convêm posturas reducionistas no seu trato. O desafio é trazer à tona continentes subterrâneos que subjazem aos enunciados tomados como naturais e óbvios; trabalho que demanda tempo de elaboração e profunda escavação na história cultural.

Referências

BUARQUE, Chico. Calabar: o elogio da traição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.
CORRÊA, Alexandre Fernandes. Festim Barroco. São Luís: EUFMA, [1993] 2008.

ELIADE, Mircea. Aspecto do mito. Lisboa: Edições 70. [1963] 2000.

10 de agosto de 2012

MITO, IDEOLOGIA, SONHO E O ENIGMA DOS 400 ANOS


Alexandre Fernandes Corrêa e
Adriana Cajado Costa

Com a aproximação da efeméride dos 400 anos da cidade de São Luís (1612-2012), o que temos a dizer sobre a função simbólica dos mitos? Logo de início podemos dizer que o "mito é uma fala histórica", como adiantou Roland Barthes. No entanto, é nesse momento oportuno que pode se tornar muito fecundo invocar algumas reflexões sobre o trabalho de recuperação do mito na modernidade. 
Podemos partir da premissa que mito tanto remete a uma fala histórico-cultural, como a fala do mundo psíquico individual, pois a estrutura analítica mais pessoal, não nega homologia com os processos de análise sociocultural. De certa forma, podemos dizer que há muita semelhança entre o trabalho da Psicanálise e o da Mitanálise (ou da Culturanálise); enquanto ciências semiológicas operam escavações do tipo arqueológicas do inconsciente social e psíquico, sob regimes de escuta, pontuação, interpretação muito semelhantes. Por isso, afirmamos que é um grave erro a leitura do mito como discurso falso, fabuloso, ou enunciado mentiroso e enganador. Como se verá aqui se trata de uma resistência epistemológica reativa; remetendo-nos ao cientificismo obscurantista e retrógrado ainda preso a Ciência Clássica.
O diálogo entre Logos e Mythos ecoando desde a Antiguidade Clássica já passou por viradas importantes, em diversas revoluções epistêmicas, cristalizando-se no século XX. A crise do cartesianismo e do positivismo vem de longa dada e hoje, felizmente, entramos num novo estágio de conceituação da Mitologia. Contudo, ainda encontramos sobreviventes do velho paradigma fragmentador, resistentes e apegados àquela visão anacrônica do mito como discurso falso e enganador. São recalcitrantes presos ao racionalismo do século XIX, que contagiou muitos espíritos da primeira modernidade, espíritos evolucionistas da envergadura de um Karl Marx, por exemplo. Como se sabe, o jovem Marx chegou a considerar a noção de ideologia de um ponto de vista negativo, tomando-a como ilusão, falsa representação, falsa consciência. Na verdade, os que têm o mito como discurso mentiroso, o identificam com a noção de ideologia; baseado no jargão da Ideologia Alemã (1846). Mas os que se apegam a definição platônica do mito, também se vinculam aos pré-freudianos, aqueles mesmos que ainda consideram o sonho como material psíquico sem importância; um disparate insignificante.
Só depois da obra revolucionária de S. Freud o sonho passou a ser considerado material relevante para a análise psicológica. Assim como só depois da revolução epistemológica realizada no século XX, pelos revisores do próprio marxismo, passou-se a considerar a ideologia de um ponto vista positivo, e não mais negativo. Encontramos em Louis Althusser um dos grandes teóricos dessa virada filosófica e conceitual. Desde então, ideologia deixou de ser definida como sonho e ilusão, para ser considerada um sistema de representações articulando valores e ideias dominantes, em qualquer sociedade. “A ideologia é eterna, como o sonho”, escreveu Althusser. E parafraseando o filósofo francês em destaque, também podemos dizer: o mito é eterno.
E no intuito de solapar de vez as resistências ao estudo positivo do mito, recolhemos algumas citações significativas de alguns mestres da alta modernidade. E começamos com Edgar Morin: “O mito não é uma mentira, pois é verdadeiro para quem vive e é uma forma espontânea do homem situar-se no mundo, elevá-lo a outra esfera, ao transcendente, oferecendo valores  absolutos e paradigmas às atividades humanas, ocupando-se de tudo o que suscita a interrogação, a curiosidade, a necessidade e a aspiração”  (1986, p. 150). Nessa mesma linha de argumentação, lembramos de Mircea Eliade, ao constatar que “o mito é uma realidade cultural complexa, que pode ser abordada e interpretada em perspectivas múltiplas e complementares... Conta uma história sagrada, relata um acontecimento que teve lugar no tempo primordial, o tempo fabuloso dos começos” (2000, p. 12). Afinal, é ao mito que cabe preservar a verdadeira história, a história da condição humana; falando de realidades e do modo como elas passaram a existir. Conhecer os mitos é aprender o segredo da origem das coisas. Por outras palavras, “aprende-se não só como as coisas passaram a existir, mas também onde as encontrar e como fazê-las ressurgir quando elas desaparecem” (p. 19).
E avançando na direção da análise individual, Azoubel Neto lembra: “A psicanálise redescobriu o mito, retomou o seu estudo e fê-lo através de um método de trabalho próprio, um método que constitui em si um processo de resgate. Localizou a presença do mito como uma condição real, atuante e atual no inconsciente” (1993, p. 15). E retomando Eliade: "É por isso que o inconsciente apresenta a estrutura de uma mitologia privada. Podemos ir ainda mais longe e afirmar não só que o inconsciente é ‘mitológico’, mas também que alguns dos seus conteúdos estão carregados de valores cósmicos, isto é, que eles refletem as modalidades, os processos e o destino da vida e da matéria viva. Podemos até dizer que o único contato real do homem moderno com a sacralidade cósmica se efetua através do inconsciente, quer se trate dos seus sonhos e da sua vida imaginária, quer das criações que surgem do inconsciente (poesia, jogos, espetáculos, etc.)" (2000, p. 68-69).
Em Jacques Lacan encontramos a reiteração precisa da função do mito, que para ele é a de liberar as pessoas de uma pergunta que nos frenquentemente dizimados: “querendo responder ao que se apresenta como enigma, quer dizer, àquilo que se presume ser sustentado por esse ser ambíguo, que é a esfinge, onde se encarna, falando propriamente, uma dupla disposição por ser feita, tal como o semi-dizer, de dois semi-corpos” (1992, p. 113). O mesmo autor enfatiza este processo do imaginário ao simbólico, ao constituir-se uma organização do imaginário em mito, ou, pelo menos, no caminho de uma construção mítica verdadeira, isto é, coletiva, e nos lembra disso por todos os lados, a ponto mesmo de evocar para nós os sistemas de parentesco (1995, p. 273).
É quando nos aproximamos de Lévi-Strauss (1985), antropólogo das Estruturas Elementares do Parentesco: “A substância do mito não se encontra nem no estilo, nem no modo de narração, nem em sintaxe, mas na história que é relatada. O mito é linguagem, mas uma linguagem que tem lugar em um nível muito elevado, e aonde o sentido chega, se é lícito dizer, a decolar do fundamento linguístico sobre o qual começou rolando” (p. 242). Enfim: “o mito se desenvolverá como em espiral” (p. 265).
Portanto, considerando todas essas referências mestras, ao acusar o propalado enunciado de fundação francesa de São Luís do Maranhão, um exercício espúrio de mitomania interessada ou alienada, é perpetuar o véu do obscurantismo: afinal, que nome teria essa cidade? Os que tentam resolver de modo simplório o dilema do drama sociocultural subjacente a essa configuração mitológica no campo histórico, apenas encobrem com inconsequente irresponsabilidade algo que submerge nessas falsificações e mistificações pseudo-esclarecedoras. Para nós, subjacente a estas incompreensões e confusões está o debate sobre o reconhecimento das identificações recalcadas e não resolvidas, pois encobertas e disfarçadas neuroticamente. Acusar de mitomania os que se alinham a fraconfilia, é querer falsificar a ciência sob o manto da verdade historiográfica - recurso último da propaganda lusófila -, da qual não se tem garantia alguma de carta fundacional mais legitima ou mais verdadeira. Para solucionar esse enigma é preciso superar os obstáculos que ainda obnubilam a mente dos que se dizem críticos.

Em suma, por tudo que foi aqui recolhido em palavras: mito não é mentira, ideologia não é ilusão e sonho não é um disparate! E, parafraseando o grande poeta portenho Jorge Luis Borges no poema A Fundação Mítica de Buenos Aires, concluímos: só na lenda, começou São Luís!

1 de agosto de 2012

Descoberta e invenção do Brasil - São Luís 400 anos


No momento em que nos aproximamos do 08 de setembro de 2012, data em que comemoramos os 400 anos de "fundação" da cidade de São Luís do Maranhão, convém lembrar de um texto interessante de Roberto da Matta, publicado por ocasião da proximidade das comemorações dos 500 anos de "descobrimento" do Brasil, no ano 2000.

* * * 

Descoberta e Invenção do Brasil

Roberto da Matta (*)

Neste mês de abril, mais precisamente no próximo dia 22, vamos comemorar os 500 anos do "descobrimento" do Brasil.

Ninguém definiu melhor esse episódio do que Lamartine Babo, quando, rimou Brasil, Cabral e Carnaval, definindo uma equação que nenhum estudioso havia notado: o Brasil foi inventado por "seu" Cabral, no dia 22 de abril, dois meses depois do Carnaval!

Enquanto os intelectuais pátrios discutiam os males da mestiçagem, Lamartine Babo singelamente conectava Brasil e Carnaval. Para ele, a palavra-chave para entender a "história do Brasil" não estaria no verbo "ser" (o Brasil é isso ou aquilo, é assim ou assado), mas num processo de construção coletivo: no Carnaval que inventa nossa identidade sendo, por sua vez, reinventado por nós.

Falo destas coisas porque observo com pesar que as comemorações do descobrimento estão cercadas de melancolia. A nossa incrível capacidade de confundir crítica com flagelação tem usado essa oportunidade para realizar uma espécie de antidescobrimento do Brasil. Ou seja: no justo momento de comemorar o aniversário do País, usa-se o evento para descobrir os índios que, além de donos da terra, tinham também sua visão particular dos portugueses. Isto posto, quem "descobriu" quem?

Nada tenho contra essa tese. Mas vale estimar que a comemoração da "descoberta do Brasil" não é proposta como uma verdade indiscutível. É, entretanto, um ritual derivado de um "mito fundacional". Uma história que - como todo conto - tem uma perspectiva e um ponto de vista. No caso, como não poderia deixar de ser, um inegável viés luso-brasileiro.

Todos os países tem "mitos fundacionais". Os americanos falam de uma nação feita por "pais fundadores", os representantes das 13 "colônias originais" que, congregados em federação, escreveram o documento fundador dos Estados Unidos, a sua Constituição. Os mexicanos falam de uma "conquista", salientando um traço marcante de sua colonização pelos espanhóis imbuídos de missão civilizatória. Em ambos os casos, esqueceram-se os índios e os negros, ambos dotados de visões particulares desses mesmos eventos.

Com quem ficar? Como encontrar a trilha nesta floresta de mitos e clamores civilizatórios, se não há bússolas ou juízes da história e das mitologias?

Só há um caminho. O que reconhece a "descoberta do Brasil" como um evento inclusivo. Não há razão para esquecer que toda descoberta implica em mutualidade e reciprocidade. É triste, e ao mesmo tempo revelador, que nenhum dos vários comitês destinados a organizar e honrar esse evento original de nossa história tenha enfatizado e apresentado esse argumento definitivo: o fato de que nas três Americas, somente o Brasil tenha um mito de "descoberta" (que inclui tanto a terra quanto os nativos), quando todos os outros mitos fundacionais "americanos" sejam constituídos por narrativas baseadas na exclusão e na dominação dos nativos e da natureza.

Além disso, é preciso também ter a coragem para admitir que toda sociedade tem o direito de comemorar seus mitos. Sobretudo quando esses mitos não clamam superioridade racial ou promovem o ódio étnico. Se todas as tradições contêm sua quota de arbitrariedade, porque não aceitar as que fazem parte da nossa mitologia fundacional? Uma mitologia, reitero, singularmente baseada na inclusão e na mutualidade. Na idéia de descoberta que permite dialogar e descobrir o ponto de vista do outro. Se os grupos radicais têm todo o direito de desmistificar o mito cabralino da descoberta do Brasil, nós, brasileiros, temos iguamente o direito de acreditar e honrar esse mito que, afinal de contas, dá origem a nossa história como coletividade.

Aceitos esses argumentos, por que então não deflagrar um debate coletivo pondo em foco a idéia de "descoberta", de "descobrimento" e de "descobrir", atando os que aqui chegaram com os que aqui residiam, uns e outros surpresos pela visão e pelo inusitado encontro com uma outra humanidade?

Seria ótimo, se não fosse, como sempre, um tanto tarde para se descobrir o óbvio.

É incrível nossa capacidade de confundir crítica com flagelação.

___________________
(*) Jornal da tarde de 16/04/2000 

10 de maio de 2012

O SILÊNCIO DOS CULPADOS E A OMISSÃO DOS INOCENTES


Por: Joãozinho Ribeiro Data de Publicação: 7 de maio de 2012 

“O Século XXI será da cultura e da espiritualidade ou não será”. André Malraux


Circularam na rede, nesta última semana, dois manifestos/desabafos de autoria de duas divas do circuito artístico-cultural maranhense, pelas quais cultivo um profundo sentimento de respeito e explícita admiração, pela seriedade com que tratam as questões da arte & da vida e pelas posições insurgentes que tiveram a coragem de expressar, sem fazer média com quem quer que seja, colocando o dedo na fratura exposta das políticas culturais do Estado do Maranhão e do Município de São Luís, num momento de imensos desapontamentos em todos os níveis, de artistas, produtores e agentes culturais de nuestra tierra.


Keyla Santana, atriz, produtora cultural e mestranda do Curso Cultura e Sociedade, da UFMA; Natália Ferro, cantora e compositora das mais promissoras das novas gerações; ambas, mulheres destemidas, que botaram a boca no trombone, compartilhando com o mundo circunstante a sensação de vazio e de desamparo das produções locais, denunciando o “mais do mesmo”, a “consagração dos consagrados” e a marginalização de dezenas de artistas que se recusam a fazer de suas criações apenas instrumento de “alienação da galera” e da proliferação do massacre midiático imbecilizante das emissoras de rádio e televisão, sob a cumplicidade e complacência do patrocínio do empresariado da província.

Essa falta de consideração com o patrimônio cultural, seja maranhense ou nacional, é um fenômeno que atinge marcas alarmantes, promovido em escala gigantesca pelas maiores empresas de comunicação do país, e projetado nos estados e municípios, com uma força cada vez mais avassaladora, em nome de uma cultura de massa e audiência a qualquer preço, que trava e impossibilita o surgimento e consolidação de alternativas culturais baseadas no engenho e na arte da nossa rica diversidade criativa.

Recentemente, foi destaque na imprensa local e nacional, a notícia de que São Luís ocupava uma das posições mais insignificantes no ranking das Cidades Criativas Brasileiras; mais especificamente, cidades que ostentam processos e/ou experiências exitosas associadas à economia criativa, setor da Economia da Cultura responsável atualmente por cerca de 10% do PIB do planeta, conforme pesquisas de estudiosos do assunto, pertencentes ao mundo acadêmico e empresarial de diferentes continentes.

E por falar em pesquisa, uma do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada neste último final de semana, revela que o Maranhão ocupa a quarta posição no ranking de estados com piores rendimentos escolares. Cerca de 61% de pessoas com 10 anos ou mais contam apenas com a educação básica ou nenhum tipo de instrução.
Com a educação abandonada à própria sorte (ou azar?) e o desprezo ao processo criativo dos nossos artistas e intelectuais, o que esperar de um Estado onde ainda impera a mais longeva oligarquia do País? Que cidade é essa, que recebe o título de Capital Americana da Cultura e o seu aeroporto permanece na condição de um acampamento de indigentes, com tendas superfaturadas por todos os lados?

Sem incentivo à diversidade criativa não há como agregar valores ao que se produz ou produzirá neste emaranhado de interesses privados em que patina e escorrega o Maranhão, sem avançar um centímetro sequer no rumo da venta. Grandes projetos só podem fazer algum sentido se a riqueza produzida por eles for compartilhada pela maioria da população que habita o território onde estes estão sendo implantados.

A agregação de valores em todos os campos da criação humana só acontece com cidadãos livres para pensar, criar e fazer as suas escolhas; seja no campo político, social, econômico, religioso, cultural ou ambiental. Sem este requisito é impossível se falar em desenvolvimento, como se este acontecesse por um passe de mágica, retirando, de uma hora para outra, milhões de pessoas da condição de miséria, sem atacar a besta-fera da desigualdade e a posição daqueles que se beneficiam com a desgraça alheia.

Concluo a conversa desta semana com os leitores da coluna, compartilhando um texto da Doutora em Arquitetura e Urbanismo, Ana Carla Fonseca, que recentemente teve sua tese “Cidades Criativas”, aprovada com louvor na ECA/USP:

“Dentre as várias definições possíveis de desenvolvimento, uma das mais professadas foi cunhada pelo economista indiano Amartya Sen. Para ele, desenvolvimento requer a expansão das liberdades de escolha – que, por sua vez, exigem não apenas a possibilidade de fazer uma escolha (ou seja, ela estar disponível), como também ter a capacidade de refletir a respeito do que se quer escolher, ao invés de escolher o que os outros (a mídia, a opinião pública, a crítica especializada) nos levam a querer”.

Minhas caras e estimadas, Keyla e Natália, parabéns, mais uma vez, pela coragem e sinceridade das intenções e gestos conscientes e generosos que compartilharam conosco, desafiando o silêncio dos culpados e a omissão dos inocentes.

Joãozinho Ribeiro escreve para o Jornal Pequeno às segundas-feiras.

8 de fevereiro de 2012

São Luís 400 anos: O Poder dos Mitos

No Teatro das Memórias sociais econtramos o poder do jogo simbólico dos mitos, operantes tanto nas sociedades arcaicas, quanto nas modernas. Jogo estrutural de alcance e força universal, na sua relação com as narrativas sobre os fundamentos de origem do mundo cósmico, social ou pessoal. De um modo sintético podemos dizer que os mitos funcionam e são ativados por oposições que têm sua infraestrutura mais profunda ancorada nas relações entre o sagrado e o profano, o puro e o impuro, o malígno e o benígno, assim por diante. Estas oposições e os jogos socioculturais que promovem e ativam, são subjacentes a diversas manifestações hodiernas. E podemos vê-las atuando exemplarmente no caso das comemorações dos IV Centenário de São Luís/MA, nesse ano de 2012. Destaca-se em todas as observações empíricas que estamos fazendo, nesses últimos anos, com entrevistas e pesquisas mais pontuais - participando de eventos e reuniões públicas - a força que tem, e que faz movimentar, o discurso mítico na sociedade.
E não poderia ser de outro modo, caso recuperemos da história outros exemplos eloquentes, tendo em mente antecedentes de alcance civilizatório de expressão universal. Como é o caso da fundação mítica da cidade de Roma.

Ab Urbe Condita
Rômulo e Remo
Todos nós temos profunda atração pela formulação de discursos que invocam as origens de nossos núcleos urbanos antigos, especialmente os patrimonializados no século XX: "Desde a fundação da cidade...".
No caso de Roma, a cidade eterna, pergunta-se: quem a fundou, Rômulo ou Remo? Em busca dessa resposta, acabamos entrando no labirinto do maravilhoso reino da lenda! Diferentes versões já foram formuladas, em séculos de especulações, pesquisas arqueológicas e históricas na região do Lácio. É o mundo da Mitologia que não nos deixa escapar da imaginação, da fábula, dos sonhos e das quimeras. Sabemos que a lôba fabulosa criou os dois irmãos fundadores, que viveram em lutas e combates, e que terminariam por disputar o fatal embate fraticida. Rômulo assassina Remo; como nos narram Virgílio e Tito Lívio. Rômulo, o vencedor, funda a cidade de Roma...
Mas, afinal, quem constrói Roma, os latinos ou os sabinos?! E para além dos latinos e dos sabinos, teriam sido os vênetos? Ou teve a participação dos umbros, oscos, tadiates, tadinates, ausônios, saminitas, lucanos, rútulos, picenos, bretões, etc.; ou ainda, os sículos, sicanos e elimos? Quem sabe a resposta mais verdadeira? O certo é que considerando o fato de todos terem formado um agrupamento socio-cultural denominado itálico, ou italiota, e de suas línguas ter derivado o latim, os futuros moradores da cidade eterna possuem origens comuns.
Essas perguntas, que revelam essas oposições e polaridades, fazem funcionar e ativam o poder dos mitos. Em Roma, como em qualquer cidade, - assim como na fundação de narrativas sobre origens de - povoados, vilas, lugarejos, grupos, pessoas, etc., os mitos ocupam o lugar de articulação dos símbolos e do imaginário, recolhendo-se do real os signos adequados a sua movimentação. 

Daniel de la Touche
Em São Luís assistimos a mesma luta e disputa mítica, com a oposição de duas versões narrativas rivais. As duas invocando origens europeias; por que? Porque não se atribui a fundação da cidade aos indígenas, Tupinambás vindos da Bahia (tendo expulsado os Timbira/Tapuias para o continente); e nem se atribui aos africanos, pois ainda não havia ainda o tráfico de escravos, na região.

Jerônimo de Albuquerque Maranhão








Resta para o embate teatral, e historiográfico, a alusão da presença do franceses e dos portugueses, representados pelo confronto das personagens heróicas de Daniel de la Touche, do lado franco; e Jerônimo de Albuquerque, do lado luso (-brasileiro).

A Big-Festa Neo-Barroca

Com a aproximação da data de comemoração do IV Centenário, vemos se excitar e ativar com força o poder dos mitos fundadores e a invocação de seus heróis. Com virulência e paixão inflamam-se os debates; sempre acirrados e eventualmente animados pela presença de algum nome ilustre da Ciência ou das Artes. 
Dos organizadores oficiais dos ritos comemorativos, ouvimos a promessa que realizar-se-á uma big-festa de expressão espetacular; que não será esquecida com facilidade! Veremos então mobilizar-se, com toda certeza, estruturas comemorativas tradicionais e barrocas, com arquiteturas e cenografias remanescentes do século XVII e XVIII, - em novas roupagens high tech -, incrementados com recursos midiáticos e teatralizados; lembrando o Triunfo Eucaristico de 1733, na cidade de Ouro Preto/MG. 
Modelo festivo e comemorativo colonial que atravessa os séculos, conforme defendemos em artigo recente publicado na Revista do IHGM: http://issuu.com/leovaz/docs/revista_ihgm_36_-_mar_o_2011b
Mas, atenção! A Tradição não será festejada repetindo, ou reproduzindo, o mesmo significado histórico e cultural - como se diz nas academias: "re-siginificado" ou "re-inventado". Nossa hipótese é outra. Percebemos que o discurso elaborado e articulado, para estas comemorações de 2012, rompem com as de 1962 e 1912. Mantém-se o modelo festivo e comemorativo num barroquismo sofisticado e incrementado tecnologicamente; num estilo neo-barroco pós-moderno marcante e significativo. Todavia, não é o mesmo sentido de festa que se repetirá. O modelo (estrutura/arquitetura) permanecerá o mesmo do século XVIII, com o Triunfo Eucarístico servindo como ritual litúrgico de base. No entanto, apesar dessas aparentes e superficiais semelhanças, vamos testemunhar uma virada no processo de construção social e política da festa comemorativa, nesse início do século XXI. Uma virada capital, que abalará para sempre os vestígios e remanescências memoriais e patrimonais, além de identitárias; sustentadas por estas estruturas comemorativas e festivas ritualísticas consagradas. 
Tal análise sobre as bases de fundação de um novo ciclo sócio-cultural de festividades e comemorações nas sociedades da modernidade tardia (pós-modernas), vamos apresentar no decorrer dessas crônicas. Fruto de nossas pesquisas sobre os ritos comemorativos na atualidade, reunidos sob o título Teatro das Memórias II: mitanálise e ritanálise das festas comemorativas históricas na sociedade contemporânea.
Esse trabalho avança na construção das bases teóricas e metodológicas, oferecendo subsídios para os estudos e pesquisas sobre o novo ciclo de festas e ritos comemorativos inaugurados na sociedade brasileira, desde as comemorações dos 500 anos (1992), até a efeméride dos duzentos anos de Independência do Brasil; coroada com os cem anos da Semana de Arte Moderna, em 2012.
Essa linha de pesquisa sustenta a hipótese aqui apresentada, muito sumariamente, da ruptura e descontinuidade do longo ciclo festivo e comemorativo invocado, a partir da proliferação de mega-eventos recentes na sociedade brasileira, que indicam mudanças e variações no modelo colonial barroco herdado. Com a entrada na alta modenidade, observamos os impactos de novos elementos, transformando e abalando a gramática litúrgica convencional; para além das bases econômicas e sociais, que já sofrem recentes modificações estatísticas. Mega-eventos como Panamericano, Encontro Mundial da Juventude Católica, Olimpiadas, Copa do Mundo e outros, estão transtornando as bases de produção e re-produção desses rituais litúrgicos na atualidade. 

A Viragem Decisiva

Para nos guiar nessa aventura interpretativa, no movimento de decifrar as particularidades e os sentidos da virada da produção atual de significados das festas públicas e ritos comemorativos históricos; vamos nos apoiar em Jean Baudrillard, especialmente no seu texto Simulacros e Simulação. E o parágrafo abaixo, em destaque, cai como uma mão na luva; ajudando a dissipar qualquer dúvida quando as transfromações virtuais nas quais estamos adentrando. Assim:

"Quando o real já não é o que era, a nostalgia assume todo o seu sentido. Sobrevalorização dos mitos de origem e dos signos de realidade. Sobrevalorização de verdade, de objetividade e de autenticidade de segundo plano. Escalada do verdadeiro, do vivido, ressurreição do figurativo onde o objeto e a substância desapareceram. Produção desenfreada de real e de referencial, paralela e superior ao desenfreamento da produção material: assim surge a simulação na fase que nos interessa - uma estratégia de real, de neo-real e de hiper-real, que faz por todo o lado a dobragem de uma estratégia de dissuasão" (1991, p. 14).

Levar a frente os alcances interpretativos dessa análise penetrante, não é fácil, no contexto em que estamos vivendo de recalcitrante resistência ao pensamento crítico. Reluta-se em compreender a importância desse processo de "sobrevalorização" dos mitos, dos signos, da verdade, da objetividade, da autenticidade... Trata-se de uma resistência subjetiva que configura um obstáculo epistemológico dificil de superar, sem um trabalho de escavação semiológica. É como estar diante do espelho e não acreditar no que se vê: é preciso dissimular, fingir, cindir... Estatégias de simulação e dissimulação, nos mínimos detalhes, nos discursos, nas ações, nas encenações.
Como nos apontou Henri-Pierre Jeudy, estamos testemunhando a ativação do "princípio de reflexividade", enquanto base de todo um processo de patrimonialização das identidades. Espelhos das cidades, patrimônios, memórias e monumentos tornam-se simulacros; já não há mais tradição, real, objeto, substância.
Já não faz mais sentido agarrar-se na "historiografia" científica salvadora, garantidora da suposta "verdade histórica", respondendo cientificamente a pergunta angustiada: - quem fundou a cidade de São Luís: Daniel de la Touche ou Jerônimo de Albuquerque? "A história é o nosso referencial perdido, isto é, o nosso mito" (Baudrillard, 1991, p. 59).
A empresa anunciada na rosa dos ventos, qual seja, desmitificar a fundação da capital do Maranhão, revelando a "verdade histórica e científica" de sua fundação, - elegendo critérios "autenticos" de averiguação do ato fundador - carece de apelo à razoabilidade; em resposta, temos o riso, a ironia, a irrisão. Ao contrário, é o mito que invade, como conteúdo imaginário, a cena midiática, teatralizada e dessubstancializada; mas um capítulo na longa noite da nostalgia do referencial histórico perdido.

(Continua).

3 de janeiro de 2012

MEMÓRIA DE PEDRA - DOCUMENTÁRIO SOBRE ARQUEOLOGIA NA ILHA DE SÃO LUÍS









Noite de lançamento do documentário Memória de Pedra que trata do patrimônio arqueológico Pré-Colonial na Ilha de São Luís.





A exibição será gratuita e o Cine Praia Grande conta com 120 lugares.

Lançamento do Documentário 

Memória de Pedra: 
Patrimônio Arqueológico Pré-Colonial na Ilha de São Luís

Dia 07 de fevereiro às 19:30

Cine Praia Grande

Apoio: Amor de Bebê, Ad Life Style e Posto BR Amsterdã 

Marcus Saldanha Professor Jornalista
http://twitter.com/marcushistorico

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QUINTA-FEIRA, 05 DE JANEIRO DE 2012


Exibição e debate do documentário "Memória de Pedra"

MEMÓRIA DE PEDRA- UM DOCUMENTÁRIO SOBRE A ARQUEOLOGIA PRÉ-COLONIAL NA ILHA DE SÃO LUÍS

Às vésperas das comemorações dos 400 anos de fundação da cidade de São Luís pelos franceses faz-se necessário uma reflexão sobre o passado ancestral dos primeiros habitantes, anteriores aos índios encontrados pelos europeus, denominados na literatura arqueológica pré-histórica de paleoíndios.
Estes primeiros habitantes da Ilha chegaram seguindo curso de rios, na busca de alimentos, seja de caça, coleta ou pesca. Por milhares de anos, ocuparam o que viria a ser o Maranhão. Devido ao trabalho minucioso de profissionais da Arqueologia e História é possível reconstruir parte deste acervo a partir de artefatos de pedra, utensílios de cerâmica e restos do que um dia foi moradia desses seres humanos, como por exemplo, os sambaquis.
 Infelizmente, a maior parte dessa história encontra-se enterrada no subsolo por falta de pesquisa, sendo ignorado por moradores que encontram este tipo de material e o descartam e principalmente, sem ações adequadas do Poder Público.
Neste sentido, o documentário em sua ampla capacidade de registrar experiências da realidade com liberdade e particularidades narrativas pode servir como elemento de sensibilização da sociedade na preservação do acervo pré-colonial da Ilha de São Luís, no sentido de conhecer e valorizar a “memória de pedra”, a saber, memória arqueológica pré-histórica.

Sobre o autor:


Marcus Saldanha é professor de História e jornalista. Escreve no blog Marcushistorico temas ligados a viagem e cultura. Nasceu em Brasília, mas desde criança mora em São Luís. Apaixonado por viagens percorreu mais de 160 cidades do Maranhão para escrever seu primeiro livro: “História do Maranhão” lançado em 2003 por uma editora maranhense. Agora apresenta seu primeiro filme: Memória de Pedra.

O autor fala sobre o filme:

“O MEMÓRIA DE PEDRA é um filme que aborda a questão do Patrimônio Arqueológico Pré-Colonial da Ilha de São Luís - é o primeiro filme que faço e fecha um ciclo de dez anos discutindo e estudando o tema: desde a defesa da monografia de graduação no Curso de História, quando escrevi "Uma Sistematização dos estudos sobre a arqueologia Pré-Histórica no Maranhão".

A ideia incial era documentar o acervo pré-colonial maranhense, mas por falta de recursos, circunscrevi o filme a Ilha de São Luís. Pretende-se aproveitar o gancho das celebrações dos 400 anos de São Luís onde deve se falar muito do patrimônio colonial, mas puxando a discussão sobre memória, identidade e patrimônio a partir do conhecimento e valorização do acervo arqueológico pré-colonial existente na Ilha, nem sempre respeitado e preservado. 

O filme conta com depoimentos do antropólogo e prof. da UFMA, Alexandre Fernandes Corrêa; do arqueólogo e diretor do centro de Arqueologia, Desusdédit Leite, e sua esposa Eliane Leite, responsável pelo setor de Educação patrimonial do museu; do jornalista e poeta Paulo Melo Sousa; Kátia Bogéa, Superitendente do IPHAN-MA e moradores de áreas próximas aos sambaquis da Ilha de São Luís.

O DOC de aproximadamente 40 minutos, pretende fazer as pessoas olharem para o chão da memória empedrada pelo tempo, pelo cotidiano e pela constante negação. Fazer uma reflexão sobre o passado e reconhecer-se no machado de pedra (pedra de raio, pedra de corisco), seu eu ancestral, muito anterior aos 400".

Informações Técnicas
Filme: documentário
Tempo: aproximadamente 40 minutos
Roteiro e Direção: Marcus Saldanha
Produção: Marcus Saldanha e Jacelena Dourado
Fotografia: Rafael Pinheiro
Edição: Wesley Costa
Trilha Sonora Original: Luís Fernando Soares
Participação Especial: Celso Borges (poemas inéditos)
Apoio: Faculdade São Luís

SERVIÇO

Exibição seguida de debate do documentário "Memória de Pedra"

Papoético: Chico Discos (Rua de São João, esquina com rua dos afogados, 389 – A, Altos do banco Bomsucesso).

05 de janeiro de 2012

A partir das 19 hs

2 de janeiro de 2012

Fundação mítica de São Luís: entre lusitanos e gauleses! Com humor!

*O GÊNIO TURISTA


**Antonio Noberto

Um gênio, apegado a estudos culturais, deixou o seu planeta e resolveu procurar um lugar na terra para fazer um tour. 
Escolheu o Nordeste brasileiro e, neste, como ponto de partida, decidiu-se por São Luís. 
Chegando ao Centro Histórico da capital maranhense encontrou dois europeus, que residiam na Ilha, um português e um francês, e lhes pediu informações sobre o primeiro capítulo da história da cidade. 

O gênio – Qual de vocês aqui chegou primeiro e fundou fortalezas, casas, capelas, criou leis e nomeou a cidade com o nome do seu rei?

O português (indicando o francês com o polegar) – foi ele, amigo.

O gênio – Quem foi que, autorizado pelo papa, no início dos anos mil e Seiscentos trouxe para esta Ilha quinze padres franciscanos e aqui fundou o Primeiro convento capuchinho do Brasil?

O francês – Fomos nós gauleses, nobre visitante.

O gênio – Quem foi que deixou todo o Brasil setentrional abandonado e não se preocupou em colonizá-lo?

O francês – Foram eles.

O gênio – Quem foi que escreveu os primeiros livros, relatos, crônicas e descrições sobre o povo, a fauna e a flora do Maranhão e toda a região.

O português – foram eles, senhor.

O gênio – Quem foi que aportou aqui convidado pelos legítimos donos da terra, os tupinambás, e viveu em harmonia com eles?

O francês – Fomos nós, senhor.

O gênio – Quem foi que entrou pelos fundos da Ilha, na calada da noite, e se aproximou do Forte principal se escondendo nas matas no lugar conhecido hoje como Fonte das Pedras?

O português – Fomos nós, amigo.

O gênio – Quem dizimou as 27 aldeias existentes na Ilha e promoveu maior genocídio do Brasil?

O francês – Foram eles, senhor.

O gênio – Quem foi que levou representantes indígenas tupinambás das aldeias do Maranhão para a Europa e fez-lhes grande recepção. 

O português – Foram eles, senhor.

O gênio – Quem foi que não cultivou as artes e viveu somente para a guerra e, para isto, sempre utilizando o nome de Deus e de outros santos como forma de legitimação dos seus procedimentos?

O francês – Foi ele, senhor.

O gênio – Quem veio de um país pequenininho, mas que quis metade do Novo Mundo para si e, por conta disto, colonizou mal suas possessões?

O português – Fomos nós, senhor.

O gênio – Quem foi que não investiu em educação, promoveu a política do chicote e ainda levou o ouro do Brasil e deixou a cultura da exploração e do privilégio branco?

O francês – foram eles, mestre.

O gênio – Quem foi que em pouquíssimos dias após se apossar da Ilha, simulou uma fundação e nega a fundação de quem passou três anos?

O francês – Foram eles, meu gênio.

O gênio – Logo, por tudo isso, posso concluir que quem passou para História brasileira como ambicioso, perverso, pirata e invasor foi você?
(apontando para o português). 

O português – Não senhor, foi ele!


À vista destas palavras o gênio arrumou as malas e foi para outra cidade do Nordeste.
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*Baseado no texto “O Rei da criação”, de Humberto de Campos. 
**Turismólogo e sócio-efetivo do IHGM.

6 de novembro de 2011

Monumento em homenagem aos 400 anos de São Luís

Um monumento para os 400 anos de São Luís

Um monumento para exaltar os povos que participaram da formação do povo maranhense e registrar nomes de personalidades que contribuíram para a história da cidade. Esse foi o conceito adotado pelo artista plástico Jesus Santos na elaboração do seu mais novo projeto de obras de artes públicas, que será uma homenagem aos 400 anos de São Luís.

A obra de 31 metros de altura será colocada na rotatória do bairro São Francisco, no caminho da praia da Ponta d’Areia e, pelas dimensões, já é considerada uma das maiores obras públicas do Nordeste, sendo composta por três topos de concreto em alto e baixo relevo, com revestimento de cerâmica. Na parte interna, estão gravados nomes de personalidades que contribuíram para a história da cidade, passando por Daniel de La Touche, José Sarney e outros.

Cada topo simboliza a participação das raças que fazem parte formação do povo brasileiro. “Os topos são para representar o índio, o negro e o português, mas, no monumento, também vamos lembrar outros povos que passaram por aqui, como os franceses”, define Jesus Santos.

Segundo o artista, a obra monumental, que custará R$148 mil, cumpre uma função especial, pois entra nas comemorações dos 400 anos de São Luís e servirá como um instrumento para eternizar a memória de muitos nomes que participaram da fundação e crescimento da cidade quatrocentona. “A nossa intenção é eternizar na paisagem de São Luís um reconhecimento aos nossos antepassados”, diz o artista.

Obras públicas - Dono de pinturas surrealistas e que retratam aspectos do cotidiano ludovicense, Jesus Santos também é reconhecido por ser autor de várias obras instaladas em espaços públicos de São Luís. Entre os destaques, a serpente na Lagoa da Jansen e esculturas no Parque do Bom Menino, Praça do Calhau e Avenida Litorânea.

Além da peça em homenagem aos 400 anos de São Luís, o artista planeja iniciar outro projeto artístico em uma praça do bairro Renascença que receberá o nome de “Memorial da Cachaça”, mas por enquanto ainda guarda em segredo. “É um projeto em desenvolvimento. Agora estou trabalhando na finalização do conceito da homenagem a São Luís, mas, em breve, volto minhas atenções para o memorial, cuja idéia é bem legal. É uma obra divertida que eu gostei muito de fazer”, observa.


Além de artista plástico, Jesus Santos é jornalista, formado pela ECA-USP, já atuou como ilustrador, autor de capas de vários livros editados no Maranhão. Sua obra já foi objeto de pesquisa de estudiosos de artes plásticas. Ele é considerado um dos mais importantes artistas plásticos do Nordeste. As pinturas e as obras públicas já construídas por ele são tidas como grandes expoentes do realismo fantástico brasileiro.

http://imirante.globo.com/oestadoma/...gina192723.asp