Edital MCT/CNPQ 14/2008 Universal Processo 470333/2008-1



21 de fevereiro de 2007

Baile da Saudade Desterro 2007




CARNAVAL 2007
DESTERRO
BAILE DA SAUDADE

REALIZAÇÃO PROJETO TEATRO DAS MEMÓRIAS
UNIÃO DE MORADORES DO CENTRO HISTÓRICO






23 de janeiro de 2007

TEATRO LABIRINTO: A Que Causa Dedicar a Vida?

Experiência Teatral:

Encenação propondo novas relações entre palco e platéia com espetáculo de pesquisa e linguagem interativa:

TEATRO LABIRINTO. No Teatro da CEU, Rio de Janeiro,1980/82.
Direção: Mario Telles.

Tribo Trupe Cooperativa de Palhaços (1980/1):

Integrado por Leila Cardia, Antonio Gonzales, Lilian Gomez, Fabiene Garcia, Rosan de Souza, Carmen Luz, Lúcio Fagundes Telles, Fernando Neder, Lucas Chiavata, Alexandre Corrêa, outros.

Produção do Curso de Doublê do Grupo ABRACADABRA - Centro Cultural da CEU

Criação do TEATRO LABIRINTO. Espetáculo - A Que Causa Dedicar A Vida? (Centro Cultural CEU - Rio - 1980/1)

Fonte: http://artes.com/sys/sections.php?op=view&artid=4&npage=6

CRÍTICAS:

RIO DE JANEIRO, DEZEMBRO DE 1981 - Revista da ACET

TEATRO ALTERNATIVO Onde não há brechas urge criar uma

Macksen Luiz - Crítico do Jornal do Brasil

Há cinco anos a denominação teatro alternativo pretendia definir, mais que uma forma de produção teatral, uma opção de criação. Mas se a sobrevivência está difícil para todos, por que não buscar a originalidade num mercado que tende a se padronizar? Os grupos (ou elencos) alternativos, ainda que muito incipientemente estão arranhando essa constatação óbvia. Há pelo menos duas tendências bem marcadas entre os alternativos: a de reencontrar a pesquisa teatral e a do comercialismo sem limites. Alguns grupos estão seriamente empenhados em descobrir formas diferentes de linguagem teatral, capazes de atraírem o público e de contribuírem com a renovação de estilo, de elenco e de repertório. Talvez o espetáculo mais representativo desta tendência atualmente em cena no Rio seja Labirinto - A que causa dedicar a vida?, criação coletiva da Tribo Troupe Cooperativa de Palhaços que pode ser visto no Teatro da CEU. A idéia do grupo é a de fazer com que o espectador não seja um elemento passivo, um mero observador do fato teatral. Investido do papel de ator, o público penetra num labirinto dentro do qual lhe são propostas várias situações que são debatidas com os atores. Nesse jogo lúdico-teatral é incentivada uma nova relação entre palco e platéia que avança uma pesquisa tão em voga no teatro experimental em todo o mundo.

O Globo - Terça-feira, 1/9/81

TEATRO / Crítica - Flavio Marinho

'Labirinto': Um simpático parque de diversões

Em matéria de proposta teatral original e anti-convencional, "Labirinto: A que causa dedicar a vida?", uma apresentação da Tribo Trupe Cooperativa de Palhaços no Teatro da Casa do Estudante Universitário -somente nos fins de semana- certamente leva a palma da atual temporada carioca. Em todos os sentidos, as intenções do grupo fogem as tradicionais regras estabelecidas na relação entre espectadores e intérpretes. A começar pelo horário -que não é rígido. Começa quando o público chega. E, até forma um grupo de oito espectadores -o público entra de oito em oito- ele é entretido por dois palhaços que, entre uma e outra piada, já dão algumas dicas do que acontece "lá dentro", embora sem oferecer maiores detalhes - "para não tirar a graça".
Realmente não seria o caso de, aqui, narrar o que ocorre - senão, muito do fator surpresa de que vive "A que causa dedicar a vida?" seria esvaziado. Basta que seja dito que, nas dependências da Casa do Estudante Universitário, foi construído, com paredes de papelão, um verdadeiro labirinto cênico em que o espectador é lançado e no qual, o imprevisto - e, as vezes, o impossível - acontecem. como num parque de diversões, o espectador vai passando por diversos compartimentos em que se vê na situação de sair de sua condição passiva para atuar, como parte integrante, da ação que está acorrendo em cada compartimento. Estamos, pois, sob o signo do improviso, na medida que a reação de cada espectador caberá uma outra reação - diferente - do ator. Numa medida de 40 minutos, o espectador/ator percorre todo o labirinto, em que, de uma forma ou de outra, as vezes até sem que ele perceba, temas como a competição, o poder, a fé religiosa ou a burocracia são levantados. O rendimento da proposta é, portanto, sempre desigual, pois seus frutos dependem muito da predisposição do espectador para tal tipo de empreitada e da capacidade de improviso e tarimba dos intérpretes. Estes mostram-se, no entanto, igualmente desiguais. Enquanto uns demonstram absoluto domínio sobre a função que lhes foi atribuída - seja ela de preso ou delegado - outros mostram-se ainda um pouco vedes para cumprir tão difícil tarefa como criar, em cima da hora, falas não preestabelecidas.
Nota-se, claramente, influência do Teatro do Oprimido de Augusto Boal nas raízes do "Labirinto". Mas, enquanto a proposta de Boal ia além da teatral e chegava a beirar o terreno da pedagogia, a de "Labirinto", com sua ênfase no aspecto lúdico da atividade teatral, vai somente as raias de um "trem-fantasma" com ligeiras implicações sociais. A pergunta colocada no título, por exemplo, ("A que causa dedicar a vida?") não é, afinal, desdobrada no decorrer do "Labirinto". O espectador acaba saindo dele sem se questionar muito sobre a vida ou a realidade que o cerca, deixando a Casa do Estudante Universitário com a impressão de ter participado de um insólito - porém simpático - parque de diversões. E, portanto, aconselhável ao espectador mal-humorado passar ao largo das brincadeiras desta Trupe de Palhaços.

Jornal do Brasil - Rio de Janeiro - Quinta-feira, 2 de setembro de 1981.


TEATRO. No Labirinto da Vida. Yan Michalski

Num momento em que a busca da inovação só se manifesta muito esporadicamente no nosso teatro, qualquer tentativa com sabor do pouco habitual torna-se bem-vinda. É o caso de Labirinto – A que causa dedicar a vida?, que introduz no Rio um tipo de experiências ambientais que a vanguarda européia andou explorando com insistência no fim dos anos 60 e no início da década passada. A idéia-base de Labirinto é, por exemplo, quase idêntica à de um famoso espetáculo do italiano Luca Ronconi, XX, lançado no Festival do Teatro das Nações em Paris em 1971.
Esta idéia-base consiste em colocar o visitante em espaços e situações especialmente criados de tal modo que ele não se sinta um passivo espectador de uma representação, mas um individuo inopinadamente colocado pelo destino diante de pressões e desafios que exigem dele tomadas de posição, escolhas de uma entre várias alternativas, definições de pontos-de-vista. No caso, os espectadores são introduzidos em grupo de oito - que, porém, se desfazem rapidamente, de modo que o contato com a experiência passa logo a ser individual - num complicado labirinto construído de papelão, cuja travessia se constitui, já em virtude das características sufocantes e insólitas do espaço, numa tarefa que a vítima enfrentará com provável sensação de insegurança, com as suas habituais defesas algo abaladas. No início, o espectador é exposto a um desafio apenas lúdico, sendo solicitado a participar de uma inocente brincadeira, de uma infantil simplicidade. Aos poucos, porém, ele passa a esbarrar em varias e imprevistas situações, cujos detalhes me eximo de descrever, para não estragar a surpresa dos eventuais futuros candidatos, mas que são geralmente extraídas do panorama da violência a que o carioca está rotineiramente exposto no seu cotidiano. Diante dessas situações, o espectador é chamado a reagir a cada passo, quer assumindo o caráter apesar de tudo ficcional da experiência e tentando improvisar um personagem por ele mesmo idealizado como adequado às solicitações da respectiva situação, quer transpondo-se para o plano da realidade e dando as respostas que daria se estivesse participando de uma situação semelhante na vida real. Uma avaliação critica de uma experiência como esta é muito problemática, já que cada espectador assiste, na verdade, a uma realização diferente da que é assistida por todos os outros, pois seu desenrolar depende decisivamente das suas próprias reações, e das dos seus companheiros de grupo. De saída, para dissipar possíveis receios dos mais tímidos, cabe dizer que não existe risco de situações de constrangimento, pois a Tribo Trupe Cooperativa de Palhaços trata as suas vítimas com respeito, calculando adequadamente as doses de aflição e insegurança inerente á natureza da proposta, mas sem abusar de posição de autoridade em que os atores se encontram em relação aos desprevenidos visitantes do labirinto. O trabalho foi preparado com visível cuidado, a começar pela inventiva ambientação cenográfica de Leila Cardia, e culminando com a segurança e desenvoltura de improvisação com que os atores respondem às diversas reações dos seus visitantes. Pelo menos nas situações que enfrentei, quer sozinho ou junto com outros companheiros de travessia, pareceu-me que os intérpretes estão preparados para dominar convenientemente as suas respectivas situações, qualquer que seja a resposta que encontrarem.
A experiência é curiosa, mas pareceu-me insuficientemente amadurecida e definida, e portanto fica mais na superfície do que seria de se esperar, considerando os seus enunciados teóricos. Em momento algum consegui avaliar qual é a parte efetiva de mera brincadeira e qual a parte de uma vivência mais profunda que a equipe pretende extrair do trabalho; e em momento algum senti-me suficientemente pressionado para motivar-me a discutir as situações propostas; sendo que algumas delas foram, na minha passagem, resolvidas tão apressadamente que pareciam não passar de esboços. Toda a travessia do labirinto é, aliás, muito apressada em relação às reações que se pretende extrair dela; e é desproporcionalmente curta em comparação com o tempo de espera durante o qual o espectador, enquanto aguarda a sua vez de ser admitido no labirinto, é distraído por dois palhaços simpáticos e não desprovidos de graça, mas cujo trabalho, pela própria natureza, não passa de uma laboriosa encheção de lingüiça.

24 de dezembro de 2006

BOAS FESTAS E SUCESSO EM 2007!



Boas Festas & um Bom Teatro das Memórias para Todos em 2007!

28 de novembro de 2006

CONVITE PARA DIA DO PATRIMÔNIO SÃO LUÍS

Ação Cultural Teatro das Memórias - 2006-20012



Reflexões sobre a Ação Cultural

Teatro das Memórias: a ação cultural no campo do Patrimônio Cultural e da Memória Social.

Minha intenção aqui é colocar alguns pontos importantes a partir de minha experiência com trabalho de pesquisa e extensão universitária em alguns bairros da capital. Especialmente no que nos remete ao problema da ‘espetacularização’ crescente da cultura, do patrimônio e da memória social.
Essa área do conhecimento e da vida social está sendo investida com muita força atualmente. Desde os anos 90, assistimos a ‘virada cultural’ do capitalismo – na qual o passado, o folclore, o artesanato e as demais expressões e manifestações da cultura popular, passaram a ser investidos como ‘produtos’ mercadológicos atraentes e de alto valor turístico e promocional – o chamado ‘marketing cultural’ das empresas e dos políticos.
É preciso ter muito cuidado nesse domínio – para que não se perca definitivamente o valioso acervo cultural e patrimonial da sociedade brasileira, isto é, o rico patrimônio cultural e simbólico produzido pela população brasileira, nesses 500 anos de Brasil.
Ao sofrer o impacto violento das agências de capitalização – muitos acervos culturais podem desaparecer – caso não tenha com propriedade as determinações sócio-econômicas do processo...
A principal contradição a ser enfrentada é: ao estar se voltando ‘ingenuamente’ para os produtos e bens culturais populares – nós estarmos contribuindo para o seu desaparecimento, tornando-os fósseis culturais – mercadorias inautenticas e simulacros de identidades culturais perdidas.
A ‘espetacularização’ da cultura, que transforma os bens culturais em objetos teatralizados e midiatizados – coloca em risco patrimônios culturais valiosos.
A questão então é: como resistir a essas forças atuais?
Primeiro de tudo é preciso compreender como funciona e de que forma se reproduz a lógica cultural dominante.
Todo trabalho de ação cultural (extensão e pesquisa-ação) deve ter em mente, e a priori muito bem desenhado, o mapa das condicionantes reais do sistema cultural em que se atua e trabalha. Vejamos: os empresários têm interesses específicos; os políticos outros interesses; as ‘comunidades’, outros; os agentes e técnicos, outros ainda; e assim por diante. Como decifrar a lógica de suas ações e interesses?
Esse é o trabalho do cientista social (seja ele historiador, sociólogo, antropólogo, etc). Todo trabalho científico de recuperação e reabilitação da memória social e histórica, requer muito tempo de reflexão e investigação. Isso choca com a lógica dos interesses imediatos e instrumentais, ávida por um calendário intenso de eventos e programações culturais e artísticas. A todo instante as empresas, os políticos, e a própria comunidade, exigem resultados imediatos, eventos espetaculares, etc. Como resistir a essa lógica, e fazer um trabalho científico duradouro e cidadão? Como convencer a própria comunidade, além dos agentes, empresários e políticos, eu se deve ter paciência e compreender que o trabalho com comunidades, geralmente, muito empobrecidas e em situação de risco, requer um longo trabalho com psicólogos, assistentes sociais, historiadores, cientistas sociais, etc. Essas pessoas tentem a considerar exagerado, complicado, lento e demorado o trabalho científico qualificado... Em suma, dizem e pensam: “os intelectuais e professores, complicam demais – queremos soluções imediatas...”

Diante de um quadro social com essas características e com tais contradições de interesse, nos parece que uma forma de resistir é fortalecer os grupos de pesquisa e extensão, e conseguir criar condições de mantê-los autônomos e independentes, o máximo que puder, dessas agências. Não é fácil, já que a Universidade brasileira, e a UFMA e UEMA, são particularmente avessas a trabalhar pela cidadania cultural das camadas subalternas. Ao contrário de outras Universidades do Centro-Sul, que já possuem uma boa história de trabalhos com comunidades de favelas e de bairros de periferia, a Universidades do Maranhão só contenta e dar diplomas para a classe média continuar ascendendo aos cargos de controle e prestígio – diplomando os novos membros das camadas dirigentes...

A Universidade, então, não possui ainda condições concretas para oferecer recursos próprios para que os grupos possam atuar com independência e autonomia. Isso é mal...
As próprias comunidades ao cobrarem mais atuações concretas dos pesquisadores e extensionistas, colocam a Universidade numa situação complicada.
Uma proposta interessante seria a criação de um Núcleo de Extensão e Pesquisa-ação, no Centro Histórico de São Luís, para dar condições de maior independência e autonomia aos cientistas, para que possam realizar seus trabalhos que têm metas de longo prazo.

Resumindo, quais são os problemas centrais a serem enfrentados:

1. A ‘espetaculçarização midiática’ crescente – a teatralização ‘espetacularizada’ que torna o cidadão um mero espectador passivo de produtos áudios-visuais, pré-elaborados pela indústria cinematográfica e filmográfica...
2. O trabalho científico deve resistir a força que tende a menosprezar sua utilidade social – resistir a ser relegado a um plano secundário e coadjuvante...

O Primeiro ponto é chave – é preciso enfrentar essa força de ‘espetacularização’ que transforma o cidadão em mero expectador, em mero consumidor passivo de imagens e objetos (CD’s e DVD’s). Os cuidados nesse domínio devem ser feitos com muita atenção aos procedimentos de criação e produção das imagens – deve-se ter maior controle sobre os meios de criação e produção das imagens e dos textos sobre os trabalhos. Democratizar a produção das imagens, pois é a própria democracia que está em jogo aí. Afinal os direitos culturais devem estar ligados a questão da gestão dessas produções imaginárias e discursivas...

O segundo ponto é fortalecer a produção científica. O trabalho de pesquisa exige um longo trabalho de observação, de registro, de inventário, de catalogação, etc. Exige respeito ao grupo receptor, exige longa e concentrada ‘dialogia’ entre os pesquisadores e o grupo pesquisado. Por que isso se dá? Por que o trabalho com a memória não é fácil: a memória social brasileira não é um mar de rosas... Nosso país tem uma história complexa, com muitos grupos humanos em confronto, classes sociais em disputa, migrações e deslocamentos, na maioria das vezes ‘traumáticos’. Situações históricas e sociais fruto de um colonialismo repleto de disputas, guerras, dominações e conflitos... Por isso trabalhar com a memória social, com a história de vida, com a memória histórica exige muito trabalho, cuidado e atenção. Muito respeito para com as dificuldades dos grupos sociais em ‘relembrarem’, ‘recuperarem’ histórias difíceis e traumáticas: são filhos de operários, migrantes, prostitutas, traficantes, etc., na grande maioria em situações de grave risco social. Temos que ter muita paciência, e realizar um verdadeiro trabalho ‘terapêutico’ da memória social...
A memória social brasileira é fruto de uma história de muitas dificuldades para a maioria da população – por exemplo, são apenas 100 anos de abolição da escravatura oficial, fato que ainda está muito presente na história de vida de diversos grupos sociais. Num país com a maior desigualdade social do mundo, é preciso um trabalho de grande sensibilidade antropológica, histórica e social. Os dramas sociais vividos por essas populações são muito complexos para se tratar com festas e manifestações folclóricas para turista ver – é preciso um trabalho coletivo de re-eleboração do material histórico que aflige a memória desses grupos – são angústias coletivas que devem ser tratadas por análises institucionais coerentes e bem fundamentadas. Não se pode improvisar nesse domínio...

Diante desse quadro social e político é preciso que os cientistas sociais e historiadores (os psicólogos sociais, assistentes sociais, etc) tenham em mente que é preciso resistir as forças de espetacularização e banalização midiática da história e da cultura popular. Resistir a comercialização barata da cultura, do patrimônio, do folclore e do passado, com muita energia e esclarecimento. Mas é preciso também saber trabalhar com as resistências da própria comunidade (grupo receptor), que muitas vezes cobram dos próprios pesquisadores e cientistas soluções rápidas e projetos de salvação e redenção econômica – tipo Projetos de Auto-Sustentabilidade, Arranjo Local Produtivo, Design Padronizado, etc. Temos que ter consciência das contradições que são inerentes ao processo de investimento social no campo da memória, do patrimônio e da cultura, na atualidade. Essa preocupação é legitima e exige do cientista social e do historiador um trabalho responsável digno de ser considerado um trabalho científico, que é a expectativa da sociedade brasileira. Essa expectativa não ilusória, ela está inscrita na Constituição Federal, nos artigos 215 e 216, nos quais está garantido que todo cidadão brasileiro tem direito a ‘cidadania cultural’ – algo que na atualidade não pode ser esquecido ou negligenciado por ninguém.

Alexandre Corrêa - UFMA

13 de setembro de 2006

Artigo Teatro das Memórias Jornal O Estado do Maranhão

TEATRO DAS MEMÓRIAS DE SÃO LUÍS 400 ANOS

A cidade de São Luís, daqui a apenas seis anos, completará 400 anos de existência histórica, atestada em registros e documentos oficiais. São quatro séculos de formação urbana e configuração de uma paisagem humana e natural transformada pela ação de diferentes povos, que não habitavam a ilha do Maranhão. Isso não quer dizer que a ilha não fosse habitada, ou que não houvesse vestígios de qualquer civilização anterior a 1612. Pelo contrário, com a comemoração dos quatro séculos de São Luís não devemos esquecer que a presença humana na ilha do Maranhão (Upaon-Açu) vem de longa data. Ao tomarmos como certa as datações do sítio arqueológico da Serra da Capivara (Piauí), a presença de grupos humanos no Maranhão e na ilha de São Luís, nos reporta, por dedução, provavelmente a milhares de anos.
O teatro das memórias sociais e naturais de São Luís, então não deve deixar de levar em conta o vasto perfil histórico e arqueológico dos povoamentos da ilha. Todos sabemos que ao chegar em Upaon-Açu, nas primeiras décadas de 1610, os europeus (portugueses, espanhóis e franceses) encontraram grupos de Tupinambás que se deslocavam da Bahia e que haviam expulsados os grupos autóctones chamados pejorativamente de Tapuias, em língua Tupi, refugiados no interior do continente. Ao construirmos as comemorações pelos 400 anos de São Luís, não devemos esquecer da complexidade cultural e histórica do processo de povoamento da ilha. No teatro das memórias da São Luís não podemos vacilar e desprezar o jogo complexo do esquecer e do lembrar da sociedade local. Ao investir na história cultural de São Luís, devemos saber cultivar com injustiça a pluralidade dos grupos humanos que contribuíram para sua formação, como, por exemplo, os negros africanos, transportados em séculos de tráfico de escravos, e os sírios e libaneses que desde o começo do século XX migram para o Maranhão.
Chegou a hora – pode-se dizer que com algum atraso – de passarmos a investir na memória social e natural plural da ilha e da cidade. Devemos superar o reducionismo de um investimento restrito que insiste em restringir-se a expressão arquitetônica do patrimônio histórico inscrito na lista da Unesco, em 1997. Ao ficarmos presos a matriz arquitetural, desprezamos as múltiplas determinações da formação humana da cidade. Nas comemorações pelos 400 anos devemos nos preparar para promover e investir na pluralidade e na multiplicidade da expressão cultural e histórica dos diferentes grupos humanos que povoaram e povoam a ilha e a cidade. Porém, não podemos nos restringir apenas a memória social e histórica. Devemos ir mais além, não nos esquecendo da paisagem natural da cidade. É lamentável que ainda não tenhamos um Jardim Botânico, um Jardim Zoológico, um Parque da Cidade! O teatro das memórias de São Luís está mutilado, não está completo. Sem um investimento social e coletivo nas expressões do patrimônio bio-cultural integrado, não se estará contribuindo para o desenvolvimento equilibrado das forças sociais e culturais da ilha e da cidade. É preciso integrar a natureza e o meio ambiente no processo de preservação, ao custo de estarmos promovendo um desenvolvimento unilateral fraturado, pois ao nos fixarmos apenas no cenário arquitetônico estamos contribuindo, como mero álibi, para a destruição da natureza e a perda da pluralidade da diversidade bio-cultural exuberante dessa parte do país, que merece mais atenção e respeito de todos nós e, principalmente, das autoridades estabelecidas.

Prof. Dr. Alexandre Fernandes Corrêa – UFMA – alex@ufma.br
Coordenador do Grupo de Pesquisa Patrimônio e Memória

Veja Notícia - ASCOM/UFMA
http://panaquatira.ufma.br/noticias/noticia.php?id=1334&print=1