Edital MCT/CNPQ 14/2008 Universal Processo 470333/2008-1



30 de abril de 2012

DESABAFO DE UMA ARTISTA


ACORDA SERPENTE!


"Uma coisa que me deixa puta é esse apelido que São Luís tem de "Ilha Rebelde". Porque eu entendo rebeldia de uma maneira absolutamente diversa de irresponsabilidade. Rebeldia é não aceitar o imposto, olhar as coisas sobre uma perspectiva menos viciada, enfrentar paradigmas, vencer dogmas, não estagnar no passado, questionar e principalmente repaginar o presente. Ser rebelde é ser atuante, consciente, crítico, inalienável.



Irresponsabilidade, é o avesso de tudo isso, com a agravante ainda mais cretina que é o egoísmo. Irresponsabilidade é abandonar, não diferir, não contribuir, não colaborar, não cumprir, não apoiar... É também roubar de si o dever de cuidar pra que as coisas evoluam, dentro e fora de nós.


São Luís é uma ILHA IRRESPONSÁVEL.


Aqui as pessoas arrotam o azedo e mofado título de "Atenas Brasileira", como a pelo menos 2 séculos isso não deixasse de ser realidade. Talvez porque de atenienses tenham conservado o hábito do ócio. Só que a modalidade daqui é mental.
Eu podia passar a vida aqui comentando de todos os descasos escrotos que assolam nossa cidade e tem como mais importante causa o desinteresse absurdo da nossa população, e podia falar de todos esses filhos da puta que estão aí drenando nosso dinheiro pra aparecerem de dois em dois anos mostrando seus sorrisos de acrílico, conseguindo assim mais 4 anos de pura mamata.


Mas eu sou artista, e escolhi falar da parte de me cabe, ou seja, o nosso cenário cultural.
O nosso público é preguiçoso e os nossos artistas também. A nossa cena ainda ocorre pelo esforço quase beato de pouquíssimas pessoas que se preocupam em colocar a nossa cultura no lugar que eu já nem sei se ela merece mais.

Ontem fui ao BR-135. E eu vou pedir licença ao meu amigo Alê Muniz pra tecer algumas informação e dados válidos sobre o projeto.


O BR foi montado com o muito principal objetivo de conceder palco de qualidade e público aos nossos artistas a um público aparentemente ávido de novidades e renovação da nossa música. Não só da música, aliás.
E ele surgiu também como alavanca de surgimento de outras iniciativas da mesma natureza, ousadas, que tirassem o invólucro, a casca vendida da nossa culturalidade.


O BR surgiu pela iniciativa de duas pessoas que não tem a menor necessidade de pensar no futuro cultural da nossa cidade, pois já se despiram da aura pegajosa e magnética que parece envolver as pessoas daqui. Essas pessoas sequer precisam morar em São Luís, mas ainda assim resolveram não esquecer da sua vontade de ver aqui as coisas mudarem de figura.
E essa galera tá fazendo isso sem patrocínio de NINGUÉM. O apoios que recebem são extremamente bem-vindos e são dados por "brothers" (como o Alê falou ontem), por gente digna, realmente rebelde e que não desiste disso.


Grosso modo, os organizadores do BR estão tirando grana do próprio bolso pra ver a parada funcionar.
E leia-se: - O BR não chama ninguém pra tocar de graça! Ali a ideia é que o artista se sinta como o artista que é.
Aí eu revoltadamente me deparo com o fato de que, mesmo sendo um movimento ousado, necessário, esperado e de ingresso barato, o povo não tá indo. Nem público precisado, nem artistas interessados, nem mídia especializada de qualquer natureza, inclusive marrom. NADA.


A galera daqui tá deixando o BR morrer como fazem com todas as iniciativas que não envolvem putaria de verbas e eventos popularescos emburrecedores.
Eu me envergonho de pensar em quantas pessoas deixaram de ver os shows incríveis de Madian e Preto Nando ontem pra ir pro sertanejo ou por forróbunda. Eu me envergonho das empresas que contribuem pro enraizamento e instalação irreversível desse vazio cultural, e simplesmente CAGAM pra iniciativas que transformam ideias e pessoas. Eu me envergonho dos artistas preguiçosos e desunidos que vivem no mundo ao redor de seus próprios umbigos minúsculos, e que não pensam que sozinhos não chegarão a lugar nenhum.


Enfim, eu me envergonho pela desilusão das poucas pessoas que ainda tem a intenção de fazer alguma coisa pela gente.
Esse manifesto aqui é de desesperança. Eu não acredito sinceramente que as coisas possam ficar melhores do que o pior que já existiu.


Enquanto não for repensando esse conceito de que a gente é especial, que a gente foi colonizado por francês, que a gente é mais sabido que todo o Brasil, que a gente não precisa de ninguém, que a gente é filho, sobrinho, parente, puta do deputado... Isso não vai mudar.


É preciso que nos conscientizemos. São Luís é uma bosta. Nossa sociedade é corrupta, leviana e burra. Nossos políticos são asquerosos. Aqui é fim de linha.
E eu termino esse desabafo dizendo que menti.
Esse não é um manifesto de desesperança. É um manifesto de desesperada.
É o que posso fazer no momento pra dar a minha contribuição a um utópico desejo de resitir, e é com muita dor que o faço.

Eu não queria ter que dizer tudo isso, e queria trabalhar com dignidade da minha própria arte na cidade em que eu nasci. Eu queria que os meus companheiros de profissão fossem também os de vida, e que a gente se unisse num esforço sincero de se apoiar e se acrescentar pra crescer junto. Eu sonhei com o dia em que iniciativas independentes fossem abraçadas como oportunidades reais de fortalecimento da nossa identidade artística.


Eu sofro pelos rebeldes que restam. E não posso rezar pelos irresponsáveis que transbordam, infelizmente.
Eu desejo mesmo, muito, é ver a porra dessa Serpente acordar.

Parabéns a todos os rebeldes que fizeram, apoiaram e compareceram ao BR-135 ontem. Foi um lampejo lindo do que a gente deveria ser."

Nathália Ferro, cantora e compositora maranhense.
Texto publicado nas redes sociais, dia 29 de abril de 2012.

6 de abril de 2012

No Dia do Assassinato de Cristo.


No Dia do Assassinato de Cristo.

Nosso Amor-Vida que estais no Céu,
Santificado seja vosso nome,
Venha a nós o vosso Reino.

Seja feita vossa Vontade.
Assim, na Terra como no Céu.

O pão nosso de cada dia,
Nos dai hoje.

E perdoai as nossas culpas.
Assim como nós perdoamos
Aos que nos tem ofendido.

E não permitais que nosso amor seja deturpado;
Mas livrai-nos de nossas perversidades.

Amém!

Wilhelm Reich

14 de fevereiro de 2012

Festa e Guerra em Tempos de Carnaval

Tomatina: Festa da Guerra do Tomate (Espanha)
Aspectos socioculturais merecem ser destacados dos acontecimentos lamentáveis registrados no último final de semana em São Luís/MA. Trata-se do verdadeiro campo de guerra que se instalou, momentos antes de um grupo musical da Bahia, chamado Psirico, apresentar-se no palco principal da Festa Pública organizada pelo Governo do Estado do Maranhão, designada de CARNAVAL DOS 400 ANOS!

Trata-se de uma festa contratada com dinheiro público, agenciando artistas locais e de outros estados da federação, para embalar num rito pr-e-carnavalesco, a multidão sempre ávida por diversão, entretenimento e lazer. Principalmente os jovens, em pleno vigor de suas energias vitais.

Mas, o que um sociólogo dos processos culturais pode dizer sobre os fatos ocorridos? Afinal, trata-se apenas de constatar uma total desorganização e despreparo do poder público instituído, em promover e garantir a segurança pública! Além de uma aberração em termos de política cultural para uma cidade e um estado! Certaamente, é mais um caso para investigação, responsabilizações e punições; sem dúvida!
Todavia, nosso interesse no tema vai além de constatar o óbvio; vai além de sublinhar a incompetência dos aparelhos de segurança e da cultura do Estado; abandonado a sorte e ao destino!

Nesse momento, gostaríamos de ressaltar um fenômeno que extrapola a realidade local e atinge o horizonte do processo civilizatório.

Ao assistir a gravação feita por um popular, através de vídeo amador - possívelmente por aparelho celular, e disponível no YouTube no endereço: http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=OjnmZo1f0Vc - nos deparamos com uma realidade que nos faz remontar a algumas reflexões sociológicas apresentadas antes da II Grande Guerra Mundial, mas que ganhou destaque nos décadas de 1950 e 60, do século passado. Trata-se mais particularmente da obra O Homem e o Sagrado (1939), de Roger Caillois. Nesse livro o sociólogo francês da Escola de Sociologia fundada por Émile Durkheim, defende, em poucas e ligeiras palavras, a teoria de que as festas, com o desenvolvimento da urbanização e da industrialização, tendem a desaparecer da paisagem civilizada, dando lugar, não ao fenômeno das férias ou do lazer; mas, a guerra! Sua teoria é que as sociedades modernas ao empobrecerem a expressão da efervescência coletiva das festas, dão lugar para o desenvolvimento do fenômeno da guerra: destruição programada, sacríficio, desperdício, desgaste, que só se comparam com a força e virulência das antigas festas e festivais arcaicos.
Em 1949, nesse mesmo livro, Caillois chegou a fazer uma observação interessante, sobre o Carnaval do Rio de Janeiro:

"Na América Latina, em especial nos carnavais do Rio de Janeiro e de Vera Cruz, onde durante uma semana prolongada toda a população de uma sociedade e dos arredores se mistura, canta e dança, se agita e faz barulho numa efervescência quase ininterrupta, pude verificar que a minha descrição da festa, ao contrário de ser quimérica, correspondia no essencial a realidades ainda vivazes e observáveis, embora visivelmente em decadência por causa das necessidades da vida urbana contemporânea." (p.10).

Podemos avançar nas considerações que estas palavras implicam, arriscando uma certa Antropologia Experimental, ou crítica cultural, tentando avaliar os alcances dessas análises; hoje, em pleno início do século XXI.

Primeiro, constatamos que a festa brasileira não está decadente!
Pode-se dizer que passou por transformações e metamorfoses, tanto profundas e como superficiais; contudo, não desapareceu! E mais, ao espetacularizar-se ganhou em profusão, alarido, rítmo, colorido e expressão! A despeito de ter-se turistificado, tornando-se mercadoria midiática, ainda resiste em alguns rincões, mesmo metropolitanos, com características consideradas "arcaicas", nas palavras do sociólogo observador de 1949. É certo que não se trata das mesmas festas; nem primitivas, nem modernas!
No entanto, o que podemos encontrar de sutil nessa teoria de Caillois?
Vestígios de um evolucionismo durkheimiano que aproveita do funcionalismo algumas ferramentais conceituais, por exemplo, a hipótese da válvula de escape; mas que não resiste as nossas observações contemporâneas. A festa continua forte, viva e poderosa; necessária, ritual, marcante!

A teoria falhou? Vejamos!

O sociólogo postula a seguinte equação, dividida em axiomas: a) A Festa é sobrevivência do mundo primitivo; b) A Modernidade empobrece a Festa; c) A Guerra ocupa o lugar da Festa na sociedade moderna.
O que podemos concluir desses postulados? A sociedade brasileira ainda não concluiu o ciclo de desenvolvimento urbano e industrial necessário para a confirmação dessa teoria? Ou a teoria peca por não relativizar o contexto cultural, religioso e moral peculiar a cada sociedade?
A nosso ver, parece que no Brasil, e na América Latina, encontramos um tipo sociológico não previsto pelo sociólogo francês. Há uma síntese, um sincretismo histórico-cultural curioso, em que a festa mantém viva e vibrante, apesar do desenvolvimento das forças produtivas. É uma festa organizada, racionalidada, menos espontanea; mas, mantém-se constante. Como explicar isso?
Por mais que os nostálgicos digam que os Carnavais de antigamente eram melhores, mais autênticos, mais verdadeiros, etc., é evidente que a festa é um traço que mantém-se recorrente e significativo em nossas sociedades latinas.
O Brasil não faz a guerra - não difunde e não desenvolve a máquina beligerante - faz a festa!
Até onde podemos avançar com essa sentença? É assim que se dá? O povo brasileiro é pacífico, ordeiro, festeiro, alegre? É assim que podemos perceber essa nação, e sua "identidade cultural"?
Então, como explicar a violência que explode em diversos locais, cidades, regiões e estados desse país? Em pleno período pré-carnavalesco! Em que a teoria social pode nos ajudar a entender esse fenômeno aparentemente contraditório e paradoxal?Jean Duvignaud, na obra Festas e Civilizações, publicada entre nós nos idos de 1983, escreveu:

"O Brasil - assim como a América Latina - (...) oferece a imagem ou a ilusão daquilo que poderia ter sido uma civilização que houvesse acolhido outra opção, diversa da rentabilidade e do capital. O ingresso na economia de mercado era inevitável? Por acaso, é inconcebível a existência de uma sociedade que pratique a redistribuição da riqueza, orientando-se para a procura do desenvolvimento de homens e mulheres, ao invés do esforço  no  sentido  de  uma organização sistemática  com  vistas a eleger o trabalho como a única finalidade social dos seus membros? Quatro séculos mais tarde, a pergunta ainda não parece haver sido formulada (...)" (Duvignaud; 1983, p. 24).

Duvignaud sugere nessa obra, que nós sigamos em busca de uma nova epistemologia que nos dê condições de superar os impasses da teoria sociológica clássica; como vimos em Roger Caillois. E nesse caminho assevera:

"É possível que a Europa não mais disponha de condições para a realização de um esforço desta natureza, embora aqui e ali despontem tentativas para decifrar o que antes parecia incompreensível. O Brasil, sem dúvida é um dos continentes onde a auto-análise - a auto-antropologia, a auto-sociologia -  podem demolir a epistemologia dominante. Mas, para isso, é claro, deve colocar entre parênteses as ideologias ou as doutrinas e 'descer à profundidade das próprias coisas'...
A festa não é, em verdade, o exercício irracional com que a queriam rotular apenas porque não correspondia às categorias menstais de um mundo paralisado pela ideia da funcionalidade ou da rentabilidade. Afinal de contas, conforme dizia Hegal, se a realidade é irracional, muito bem, devemos nesse caso inventar uma conceituação irracional..." (p. 25).
 
O que ocorreu na Avenida Litorânea da cidade de São Luís/MA e que pode ser vista no vídeo indicado acima, refelte que realidade sócio-cultura e histórica. Trata-se apensa de uma desordem nos dispositivos de controle institucional da festa programada e racionalidada? Houve uma disfunção do sistema de controle que gerou, por incopetência e falta de gerenciamento, uma explosão irracional de violência localizada e esporádica? Ou encontramos aí com um tipo sociológico sui generis em que a festa e a guerra se associam num novo fenômeno coletivo, ainda indecifrável, não codificado?

Observem que a pessoa que filmou e divulgou o vídeo na Internet, por diversas vezes no decorrer das cenas, gravadas sem edição, em 6 minutos de sequência, repete diversas vezes: - É Guerra na Litorânea! É Guerra! E o próprio título do vídeo foi divulgado nesses termos: "GUERRA NA LITORANEA, SAO LUIS-MA"! Da festa para a guerra! No mesmo espaço, no mesmo ritual, no mesmo evento! Não é uma coisa (social) ou outra; sào as duas coisas (sociais) num mesmo processo e devir!
Qual o nosso conceito de festa? Qual o nosso conceito de guerra
Quantos fenômenos sociais atualmente podemos classificar como ao mesmo tempo festa-guerra? Não são poucos!


Talvez estejamos diante de um desafio sociológico e antropológico que merece nossa atenção!
É preciso avançar na teoria social da festa e da guerra!

* * *

Essa reflexão está sendo incorporada no texto:


PARA UMA ANTROPOLOGIA DAS COMEMORAÇÕES HISTÓRICAS:
o caso do IV Centenário de São Luís/MA.



Trabalho a ser apresentado na 28ª. Reunião Brasileira de Antropologia, realizada entre os dias 02 e 05 de julho de 2012, em São Paulo, SP, Brasil.

28ª REUNIÃO BRASILEIRA DE ANTROPOLOGIA (RBA)
“Desafios Antropológicos Contemporâneos”
02 a 05 de Julho de 2012 - PUC-SP

GT 39 Festa, Estrutura, Mudança
Coordenadores: Léa Freitas Perez (UFMG) e Roberto Motta (UEPB).

GT 39 Festa, Estrutura, Mudança / Léa Freitas Perez (UFMG) – Coordenador e Roberto Motta (UEPB) – Coordenador.

A exuberância festiva onde os movimentos dos participantes “não podem ser explicados por nenhuma finalidade precisa nem por objetivos estritamente definidos, pois as pessoas pulam, dançam, choram e cantam, sem que seja possível perceber o sentido dessa agitação” (Durkheim), bem como o êxtase do transe, são fenômenos que parecem ultrapassar toda estruturação lógica e toda expressão conceptual, correspondendo à experiências nas quais determinações da natureza e da cultura são superadas e sobrepujadas. Entretanto, só adquirem pleno sentido quando articulados em estruturas coerentes e só se tornam compreensíveis quando traduzidos na ordem dos conceitos. São fenômenos socioculturais que, embora já abordados por estudiosos como Durkheim, Robertson-Smith, Turner, DaMatta, Caillois, Leiris, Bataille, e, ao menos tangencialmente, Mauss e Lévi-Strauss, permanecem como desafio, convidando-nos a deslindar e a compreender a mistura de estrutura e anti-estrutura aí presentes. Ainda mais crucial num país como o Brasil, onde festa e transe são realidades corriqueiras e cujo próprio modo de ser nasce em grande parte do entusiasmo da festa barroca, que se prolonga até os dias de hoje, em diferentes formas de manifestação. O GT quer tratar da festa e/ou dos fenômenos ligados à antiestrutura e ao excesso enquanto ligados à gênese e à transformação das culturas e de seus agentes.

Título:
PARA UMA ANTROPOLOGIA DAS COMEMORAÇÕES HISTÓRICAS: o caso do IV Centenário de São Luís/MA.
Autor: Alexandre F. Corrêa (PGCult/UFMA)
  
Comunicação com incursão nos clássicos da Antropologia da Festa e reflexões concernentes a Sociologia dos ritos comemorativos na sociedade moderna. Análise crítica de aspectos estruturais na construção social das comemorações históricas, tomando como objeto empírico o IV centenário de São Luís em 2012. Destacamos dispositivos significativos dos processos rituais locais, estruturados em esquemas sociológicos concorrentes. Ao analisar esses teatros comemorativos das festas públicas, buscamos compreender a lógica de sua permanência e mudanças em traços socioculturais particulares. Recorremos às festas de 1912 e 1962, servindo de base sociológica comparativa, pretendo alcançar as dominantes culturais dessas máquinas comemorativas. Observamos um conflito histórico-político de fundo, manifesto nos embates sobre a ‘fundação’ mítica da cidade: francófilos x lusófonos. Contornando o debate historiográfico – em que surgem acusações de mitomania e falsificação ideológica – elaboramos a hipótese do confronto entre dois esquemas celebrativos concorrentes: a) comemorativo; b) festivo. Com o enfraquecimento do primeiro observa-se o segundo preponderar, perpetuando o dispositivo barroco consagrado. Este atravessa a história desde a Colônia, atualizando o pacto festivo do 'Triunfo Eucarístico' de 1733, em Vila Rica, incorporando requintes do espetáculo midiático carnavalizado: teatro barroco mágico para as massas pós-modernas.



8 de fevereiro de 2012

São Luís 400 anos: O Poder dos Mitos

No Teatro das Memórias sociais econtramos o poder do jogo simbólico dos mitos, operantes tanto nas sociedades arcaicas, quanto nas modernas. Jogo estrutural de alcance e força universal, na sua relação com as narrativas sobre os fundamentos de origem do mundo cósmico, social ou pessoal. De um modo sintético podemos dizer que os mitos funcionam e são ativados por oposições que têm sua infraestrutura mais profunda ancorada nas relações entre o sagrado e o profano, o puro e o impuro, o malígno e o benígno, assim por diante. Estas oposições e os jogos socioculturais que promovem e ativam, são subjacentes a diversas manifestações hodiernas. E podemos vê-las atuando exemplarmente no caso das comemorações dos IV Centenário de São Luís/MA, nesse ano de 2012. Destaca-se em todas as observações empíricas que estamos fazendo, nesses últimos anos, com entrevistas e pesquisas mais pontuais - participando de eventos e reuniões públicas - a força que tem, e que faz movimentar, o discurso mítico na sociedade.
E não poderia ser de outro modo, caso recuperemos da história outros exemplos eloquentes, tendo em mente antecedentes de alcance civilizatório de expressão universal. Como é o caso da fundação mítica da cidade de Roma.

Ab Urbe Condita
Rômulo e Remo
Todos nós temos profunda atração pela formulação de discursos que invocam as origens de nossos núcleos urbanos antigos, especialmente os patrimonializados no século XX: "Desde a fundação da cidade...".
No caso de Roma, a cidade eterna, pergunta-se: quem a fundou, Rômulo ou Remo? Em busca dessa resposta, acabamos entrando no labirinto do maravilhoso reino da lenda! Diferentes versões já foram formuladas, em séculos de especulações, pesquisas arqueológicas e históricas na região do Lácio. É o mundo da Mitologia que não nos deixa escapar da imaginação, da fábula, dos sonhos e das quimeras. Sabemos que a lôba fabulosa criou os dois irmãos fundadores, que viveram em lutas e combates, e que terminariam por disputar o fatal embate fraticida. Rômulo assassina Remo; como nos narram Virgílio e Tito Lívio. Rômulo, o vencedor, funda a cidade de Roma...
Mas, afinal, quem constrói Roma, os latinos ou os sabinos?! E para além dos latinos e dos sabinos, teriam sido os vênetos? Ou teve a participação dos umbros, oscos, tadiates, tadinates, ausônios, saminitas, lucanos, rútulos, picenos, bretões, etc.; ou ainda, os sículos, sicanos e elimos? Quem sabe a resposta mais verdadeira? O certo é que considerando o fato de todos terem formado um agrupamento socio-cultural denominado itálico, ou italiota, e de suas línguas ter derivado o latim, os futuros moradores da cidade eterna possuem origens comuns.
Essas perguntas, que revelam essas oposições e polaridades, fazem funcionar e ativam o poder dos mitos. Em Roma, como em qualquer cidade, - assim como na fundação de narrativas sobre origens de - povoados, vilas, lugarejos, grupos, pessoas, etc., os mitos ocupam o lugar de articulação dos símbolos e do imaginário, recolhendo-se do real os signos adequados a sua movimentação. 

Daniel de la Touche
Em São Luís assistimos a mesma luta e disputa mítica, com a oposição de duas versões narrativas rivais. As duas invocando origens europeias; por que? Porque não se atribui a fundação da cidade aos indígenas, Tupinambás vindos da Bahia (tendo expulsado os Timbira/Tapuias para o continente); e nem se atribui aos africanos, pois ainda não havia ainda o tráfico de escravos, na região.

Jerônimo de Albuquerque Maranhão








Resta para o embate teatral, e historiográfico, a alusão da presença do franceses e dos portugueses, representados pelo confronto das personagens heróicas de Daniel de la Touche, do lado franco; e Jerônimo de Albuquerque, do lado luso (-brasileiro).

A Big-Festa Neo-Barroca

Com a aproximação da data de comemoração do IV Centenário, vemos se excitar e ativar com força o poder dos mitos fundadores e a invocação de seus heróis. Com virulência e paixão inflamam-se os debates; sempre acirrados e eventualmente animados pela presença de algum nome ilustre da Ciência ou das Artes. 
Dos organizadores oficiais dos ritos comemorativos, ouvimos a promessa que realizar-se-á uma big-festa de expressão espetacular; que não será esquecida com facilidade! Veremos então mobilizar-se, com toda certeza, estruturas comemorativas tradicionais e barrocas, com arquiteturas e cenografias remanescentes do século XVII e XVIII, - em novas roupagens high tech -, incrementados com recursos midiáticos e teatralizados; lembrando o Triunfo Eucaristico de 1733, na cidade de Ouro Preto/MG. 
Modelo festivo e comemorativo colonial que atravessa os séculos, conforme defendemos em artigo recente publicado na Revista do IHGM: http://issuu.com/leovaz/docs/revista_ihgm_36_-_mar_o_2011b
Mas, atenção! A Tradição não será festejada repetindo, ou reproduzindo, o mesmo significado histórico e cultural - como se diz nas academias: "re-siginificado" ou "re-inventado". Nossa hipótese é outra. Percebemos que o discurso elaborado e articulado, para estas comemorações de 2012, rompem com as de 1962 e 1912. Mantém-se o modelo festivo e comemorativo num barroquismo sofisticado e incrementado tecnologicamente; num estilo neo-barroco pós-moderno marcante e significativo. Todavia, não é o mesmo sentido de festa que se repetirá. O modelo (estrutura/arquitetura) permanecerá o mesmo do século XVIII, com o Triunfo Eucarístico servindo como ritual litúrgico de base. No entanto, apesar dessas aparentes e superficiais semelhanças, vamos testemunhar uma virada no processo de construção social e política da festa comemorativa, nesse início do século XXI. Uma virada capital, que abalará para sempre os vestígios e remanescências memoriais e patrimonais, além de identitárias; sustentadas por estas estruturas comemorativas e festivas ritualísticas consagradas. 
Tal análise sobre as bases de fundação de um novo ciclo sócio-cultural de festividades e comemorações nas sociedades da modernidade tardia (pós-modernas), vamos apresentar no decorrer dessas crônicas. Fruto de nossas pesquisas sobre os ritos comemorativos na atualidade, reunidos sob o título Teatro das Memórias II: mitanálise e ritanálise das festas comemorativas históricas na sociedade contemporânea.
Esse trabalho avança na construção das bases teóricas e metodológicas, oferecendo subsídios para os estudos e pesquisas sobre o novo ciclo de festas e ritos comemorativos inaugurados na sociedade brasileira, desde as comemorações dos 500 anos (1992), até a efeméride dos duzentos anos de Independência do Brasil; coroada com os cem anos da Semana de Arte Moderna, em 2012.
Essa linha de pesquisa sustenta a hipótese aqui apresentada, muito sumariamente, da ruptura e descontinuidade do longo ciclo festivo e comemorativo invocado, a partir da proliferação de mega-eventos recentes na sociedade brasileira, que indicam mudanças e variações no modelo colonial barroco herdado. Com a entrada na alta modenidade, observamos os impactos de novos elementos, transformando e abalando a gramática litúrgica convencional; para além das bases econômicas e sociais, que já sofrem recentes modificações estatísticas. Mega-eventos como Panamericano, Encontro Mundial da Juventude Católica, Olimpiadas, Copa do Mundo e outros, estão transtornando as bases de produção e re-produção desses rituais litúrgicos na atualidade. 

A Viragem Decisiva

Para nos guiar nessa aventura interpretativa, no movimento de decifrar as particularidades e os sentidos da virada da produção atual de significados das festas públicas e ritos comemorativos históricos; vamos nos apoiar em Jean Baudrillard, especialmente no seu texto Simulacros e Simulação. E o parágrafo abaixo, em destaque, cai como uma mão na luva; ajudando a dissipar qualquer dúvida quando as transfromações virtuais nas quais estamos adentrando. Assim:

"Quando o real já não é o que era, a nostalgia assume todo o seu sentido. Sobrevalorização dos mitos de origem e dos signos de realidade. Sobrevalorização de verdade, de objetividade e de autenticidade de segundo plano. Escalada do verdadeiro, do vivido, ressurreição do figurativo onde o objeto e a substância desapareceram. Produção desenfreada de real e de referencial, paralela e superior ao desenfreamento da produção material: assim surge a simulação na fase que nos interessa - uma estratégia de real, de neo-real e de hiper-real, que faz por todo o lado a dobragem de uma estratégia de dissuasão" (1991, p. 14).

Levar a frente os alcances interpretativos dessa análise penetrante, não é fácil, no contexto em que estamos vivendo de recalcitrante resistência ao pensamento crítico. Reluta-se em compreender a importância desse processo de "sobrevalorização" dos mitos, dos signos, da verdade, da objetividade, da autenticidade... Trata-se de uma resistência subjetiva que configura um obstáculo epistemológico dificil de superar, sem um trabalho de escavação semiológica. É como estar diante do espelho e não acreditar no que se vê: é preciso dissimular, fingir, cindir... Estatégias de simulação e dissimulação, nos mínimos detalhes, nos discursos, nas ações, nas encenações.
Como nos apontou Henri-Pierre Jeudy, estamos testemunhando a ativação do "princípio de reflexividade", enquanto base de todo um processo de patrimonialização das identidades. Espelhos das cidades, patrimônios, memórias e monumentos tornam-se simulacros; já não há mais tradição, real, objeto, substância.
Já não faz mais sentido agarrar-se na "historiografia" científica salvadora, garantidora da suposta "verdade histórica", respondendo cientificamente a pergunta angustiada: - quem fundou a cidade de São Luís: Daniel de la Touche ou Jerônimo de Albuquerque? "A história é o nosso referencial perdido, isto é, o nosso mito" (Baudrillard, 1991, p. 59).
A empresa anunciada na rosa dos ventos, qual seja, desmitificar a fundação da capital do Maranhão, revelando a "verdade histórica e científica" de sua fundação, - elegendo critérios "autenticos" de averiguação do ato fundador - carece de apelo à razoabilidade; em resposta, temos o riso, a ironia, a irrisão. Ao contrário, é o mito que invade, como conteúdo imaginário, a cena midiática, teatralizada e dessubstancializada; mas um capítulo na longa noite da nostalgia do referencial histórico perdido.

(Continua).

29 de janeiro de 2012

Políticas de Cultura e Projeto de Desenvolvimento para o Maranhão


A FUNDAÇÃO MAURÍCIO GRABOIS tem a honra de convidar você e todos que atuam na área cultural e artística para discutir políticas de cultura no contexto de um Projeto de Desenvolvimento para o Maranhão, na terça-feira, dia 31 de janeiro às 18 horas, na Rua do Norte, 228 (Praça da Alegria).

Participações confirmadas:

Javier Alfaya – Diretor Cultural da Fundação Maurício Grabois, Coordenador do Coletivo Nacional de Cultura do PCdoB, ex-presidente da UNE, ex-vereador de Salvador e ex-deputado estadual da Bahia.

Joãozinho Ribeiro – poeta, compositor e ex-secretário de cultura de SãomLuís e do Maranhão.
Contamos com sua presença.

São Luís, 27 de janeiro de 2012.

Tem mais! No mesmo dia às 15 hs. 

Haverá uma reunião de trabalho do Javier com a militância e a direção do partido, no mesmo local (sede PCdoB). 
Desta reunião deve participar mesmo quem não é militante da área da cultura. 

À noite será aberto para outros convidados além partido. 

3 de janeiro de 2012

MEMÓRIA DE PEDRA - DOCUMENTÁRIO SOBRE ARQUEOLOGIA NA ILHA DE SÃO LUÍS









Noite de lançamento do documentário Memória de Pedra que trata do patrimônio arqueológico Pré-Colonial na Ilha de São Luís.





A exibição será gratuita e o Cine Praia Grande conta com 120 lugares.

Lançamento do Documentário 

Memória de Pedra: 
Patrimônio Arqueológico Pré-Colonial na Ilha de São Luís

Dia 07 de fevereiro às 19:30

Cine Praia Grande

Apoio: Amor de Bebê, Ad Life Style e Posto BR Amsterdã 

Marcus Saldanha Professor Jornalista
http://twitter.com/marcushistorico

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QUINTA-FEIRA, 05 DE JANEIRO DE 2012


Exibição e debate do documentário "Memória de Pedra"

MEMÓRIA DE PEDRA- UM DOCUMENTÁRIO SOBRE A ARQUEOLOGIA PRÉ-COLONIAL NA ILHA DE SÃO LUÍS

Às vésperas das comemorações dos 400 anos de fundação da cidade de São Luís pelos franceses faz-se necessário uma reflexão sobre o passado ancestral dos primeiros habitantes, anteriores aos índios encontrados pelos europeus, denominados na literatura arqueológica pré-histórica de paleoíndios.
Estes primeiros habitantes da Ilha chegaram seguindo curso de rios, na busca de alimentos, seja de caça, coleta ou pesca. Por milhares de anos, ocuparam o que viria a ser o Maranhão. Devido ao trabalho minucioso de profissionais da Arqueologia e História é possível reconstruir parte deste acervo a partir de artefatos de pedra, utensílios de cerâmica e restos do que um dia foi moradia desses seres humanos, como por exemplo, os sambaquis.
 Infelizmente, a maior parte dessa história encontra-se enterrada no subsolo por falta de pesquisa, sendo ignorado por moradores que encontram este tipo de material e o descartam e principalmente, sem ações adequadas do Poder Público.
Neste sentido, o documentário em sua ampla capacidade de registrar experiências da realidade com liberdade e particularidades narrativas pode servir como elemento de sensibilização da sociedade na preservação do acervo pré-colonial da Ilha de São Luís, no sentido de conhecer e valorizar a “memória de pedra”, a saber, memória arqueológica pré-histórica.

Sobre o autor:


Marcus Saldanha é professor de História e jornalista. Escreve no blog Marcushistorico temas ligados a viagem e cultura. Nasceu em Brasília, mas desde criança mora em São Luís. Apaixonado por viagens percorreu mais de 160 cidades do Maranhão para escrever seu primeiro livro: “História do Maranhão” lançado em 2003 por uma editora maranhense. Agora apresenta seu primeiro filme: Memória de Pedra.

O autor fala sobre o filme:

“O MEMÓRIA DE PEDRA é um filme que aborda a questão do Patrimônio Arqueológico Pré-Colonial da Ilha de São Luís - é o primeiro filme que faço e fecha um ciclo de dez anos discutindo e estudando o tema: desde a defesa da monografia de graduação no Curso de História, quando escrevi "Uma Sistematização dos estudos sobre a arqueologia Pré-Histórica no Maranhão".

A ideia incial era documentar o acervo pré-colonial maranhense, mas por falta de recursos, circunscrevi o filme a Ilha de São Luís. Pretende-se aproveitar o gancho das celebrações dos 400 anos de São Luís onde deve se falar muito do patrimônio colonial, mas puxando a discussão sobre memória, identidade e patrimônio a partir do conhecimento e valorização do acervo arqueológico pré-colonial existente na Ilha, nem sempre respeitado e preservado. 

O filme conta com depoimentos do antropólogo e prof. da UFMA, Alexandre Fernandes Corrêa; do arqueólogo e diretor do centro de Arqueologia, Desusdédit Leite, e sua esposa Eliane Leite, responsável pelo setor de Educação patrimonial do museu; do jornalista e poeta Paulo Melo Sousa; Kátia Bogéa, Superitendente do IPHAN-MA e moradores de áreas próximas aos sambaquis da Ilha de São Luís.

O DOC de aproximadamente 40 minutos, pretende fazer as pessoas olharem para o chão da memória empedrada pelo tempo, pelo cotidiano e pela constante negação. Fazer uma reflexão sobre o passado e reconhecer-se no machado de pedra (pedra de raio, pedra de corisco), seu eu ancestral, muito anterior aos 400".

Informações Técnicas
Filme: documentário
Tempo: aproximadamente 40 minutos
Roteiro e Direção: Marcus Saldanha
Produção: Marcus Saldanha e Jacelena Dourado
Fotografia: Rafael Pinheiro
Edição: Wesley Costa
Trilha Sonora Original: Luís Fernando Soares
Participação Especial: Celso Borges (poemas inéditos)
Apoio: Faculdade São Luís

SERVIÇO

Exibição seguida de debate do documentário "Memória de Pedra"

Papoético: Chico Discos (Rua de São João, esquina com rua dos afogados, 389 – A, Altos do banco Bomsucesso).

05 de janeiro de 2012

A partir das 19 hs

2 de janeiro de 2012

Fundação mítica de São Luís: entre lusitanos e gauleses! Com humor!

*O GÊNIO TURISTA


**Antonio Noberto

Um gênio, apegado a estudos culturais, deixou o seu planeta e resolveu procurar um lugar na terra para fazer um tour. 
Escolheu o Nordeste brasileiro e, neste, como ponto de partida, decidiu-se por São Luís. 
Chegando ao Centro Histórico da capital maranhense encontrou dois europeus, que residiam na Ilha, um português e um francês, e lhes pediu informações sobre o primeiro capítulo da história da cidade. 

O gênio – Qual de vocês aqui chegou primeiro e fundou fortalezas, casas, capelas, criou leis e nomeou a cidade com o nome do seu rei?

O português (indicando o francês com o polegar) – foi ele, amigo.

O gênio – Quem foi que, autorizado pelo papa, no início dos anos mil e Seiscentos trouxe para esta Ilha quinze padres franciscanos e aqui fundou o Primeiro convento capuchinho do Brasil?

O francês – Fomos nós gauleses, nobre visitante.

O gênio – Quem foi que deixou todo o Brasil setentrional abandonado e não se preocupou em colonizá-lo?

O francês – Foram eles.

O gênio – Quem foi que escreveu os primeiros livros, relatos, crônicas e descrições sobre o povo, a fauna e a flora do Maranhão e toda a região.

O português – foram eles, senhor.

O gênio – Quem foi que aportou aqui convidado pelos legítimos donos da terra, os tupinambás, e viveu em harmonia com eles?

O francês – Fomos nós, senhor.

O gênio – Quem foi que entrou pelos fundos da Ilha, na calada da noite, e se aproximou do Forte principal se escondendo nas matas no lugar conhecido hoje como Fonte das Pedras?

O português – Fomos nós, amigo.

O gênio – Quem dizimou as 27 aldeias existentes na Ilha e promoveu maior genocídio do Brasil?

O francês – Foram eles, senhor.

O gênio – Quem foi que levou representantes indígenas tupinambás das aldeias do Maranhão para a Europa e fez-lhes grande recepção. 

O português – Foram eles, senhor.

O gênio – Quem foi que não cultivou as artes e viveu somente para a guerra e, para isto, sempre utilizando o nome de Deus e de outros santos como forma de legitimação dos seus procedimentos?

O francês – Foi ele, senhor.

O gênio – Quem veio de um país pequenininho, mas que quis metade do Novo Mundo para si e, por conta disto, colonizou mal suas possessões?

O português – Fomos nós, senhor.

O gênio – Quem foi que não investiu em educação, promoveu a política do chicote e ainda levou o ouro do Brasil e deixou a cultura da exploração e do privilégio branco?

O francês – foram eles, mestre.

O gênio – Quem foi que em pouquíssimos dias após se apossar da Ilha, simulou uma fundação e nega a fundação de quem passou três anos?

O francês – Foram eles, meu gênio.

O gênio – Logo, por tudo isso, posso concluir que quem passou para História brasileira como ambicioso, perverso, pirata e invasor foi você?
(apontando para o português). 

O português – Não senhor, foi ele!


À vista destas palavras o gênio arrumou as malas e foi para outra cidade do Nordeste.
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*Baseado no texto “O Rei da criação”, de Humberto de Campos. 
**Turismólogo e sócio-efetivo do IHGM.