Edital MCT/CNPQ 14/2008 Universal Processo 470333/2008-1



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7 de novembro de 2011

POESIAS DA MEMÓRIA

Futuro do Pretérito



MEU BEM

Meu bem, não estranhe, 
hoje não é um dia especial,
só quero dizer que te amo.
Sabemos, os dois,
que não vivemos no paraíso,
nem na melhor das épocas.
Perdoe-me a estupidez que
por vezes me devora,
toma todo o encanto das horas,
dos dias, dos anos...
Perdoe-me, se não posso
iluminar e alegrar as tuas horas,
teus dias, por todos os anos...

A Beleza é fugaz; as alegrias também!
Não devíamos pedir desculpas: ninguém é perfeito!
Quem dera apenas sentir, no despertar da alma
a luz de teus olhos,
nos meus olhos tristes,
nessas horas!

São Paulo, 15 de setembro de 1998.

§ § §

ESTÓICO

Preciso ato de dobrar-se sobre si
ver com os olhos de um duplo
como alguém que quer dominar-se.

Medir o desejo e sua fórmula infernal
tomar a razão como uma estratégia
garantir a felicidade nas minúcias.

Talvez esta seja uma forma
que não se imponha totalitariamente
mas conduz o espirito junto ao ser.

O ser tem esta aparição radiante
na dobra d’alma que se reflete
com o cuidado de não perder-se infinitamente.

No espaço que separa o olhar sobre si
habita o jogo, o drama e o texto
criação e destruição que misturam o mundo.

São poucos os momentos de lucidez
são poucos os momentos de altivez
o orgulho de viver sucumbe a mediocridade imperante.

Daí nasce o tempo, do espaço, da distância
surge o passado, as memórias, as tradições
transformar tudo isso numa imagem da razão.

Distante, observar o movimento
consevar a tranquilidade e a serenidade no fluxo das horas...
Deixar ser, na ação do pensamento concreto.


São Paulo, 23 de novembro de 1998

§ § §

EUTERPE

Em grego, a que sabe agradar.
Uma das nove musas.

Inventou a flauta, seu principal atributo.

Há música agora; nas festas e nos divertimentos.
Seguia o cortejo de Dioniso.

Ditirambos... !

Tragédia!

 § § §

IMAGEM

Como poderia te descrever
bela como és, sob a luz da lua
no reflexo que te revela, mais teu esplendor!

O sol te emoldura com tanta graça
tua pele tão vermelha
teus cabelos claros, bem claros
mas não loiros
castanhos bem claros
quase loiros...

Teus olhos enebriados escuros
vestido azul;
tudo em volta é mistura de azul
com azul marinho
sem luz!

Bem a noite, a seu redor
sentada, ao lado dos amigos
bela
em pé a espera...

Soberana, inteira
és bela e singular
divina... imagem...

Impossível te descrever
no sentimento que me invade ao lembrar
de você...
da bela e sublime aparição
imagem através de você...
aquela pessoa que surgiu na noite
imagem de mulher, seduz

A sua iluminação invadiu meu corpo
e minha alma,
para sempre!

§ § §

POEMA DAS MUTAÇÕES
                 
... desejo a força que invade o corpo,
a chama da paixão faz mergulhar no sonho,
na luxúria infinita das formas.
Vem a lembrança, ao som de Vivaldi , as "Folhas na relva" de Walt Whitman...

Como é belo desfrutar da sensação pura, da expressão lírica do mundo...
E como são tolos os verdadeiros amantes:  - melhor é tentar fugir do amor e
não se deixar contaminar...

Quem são as pessoas que verdadeiramente amam, quem sabe o que desejam?
O amor é um devaneio por vezes infame, com algozes e vítimas,
um exame de almas
a se queimar na orgia...

Vendo o mar no horizonte,
teu cheiro doce na amarga brisa,
maresia...
É impossível não ver a luz da praia,
banhando todo o litoral da cidade flutuante,
é impossível não se queimar na brasa desta cidade luxuriante!

As metamorfoses deste vampiro que vos fala e escreve,
de tantos vampiros que nas noites vãs, assolam!

Quem poderá esquecer as lições de Poe ou de Baudelaire...
Por quê minha alma se entrega em tão extravagante devaneio?
Por quê não ser mais razoável, dócil e benevolente?

Em minh'alma dança o Deus das mutações e dos lânguidos avatares...
Quem sabe se as belas formas da manhã,
na bruma quente do sereno tropical ,
não revelam as silhuetas de uma  doce harmonia,
barroca magia que enfeitiça!

Novembro, 94.

§ § §

BOEMIA...

Eu não quero dizer nada muito importante!
O que é que pode ser original,
especial, diferente,
ou verdadeiramente importante
partindo de qualquer um de nós?

Atualmente vivemos uma vida de costumes e modas
buscando alguns prazeres
com uma obsessão as vezes doentia
as vezes malandra...

Não tenho palavras novas,
inovadoras, revolucionárias, ou...
Quem é que pretende coisas desse tipo hoje em dia?

§ § §

FLORESTA SOMBRIA

Amarga o interior deste corpo
um sentimento espesso e rugoso
de uma dor não curada
de ferida ainda aberta.

Esconde-se na floresta sombria
a angústia traiçoeira.

- Não tem razão que a decifre
tem um mal de raízes profundas,
neste canto triste e solitário.

Entre o sonho e a realidade
existe o fruto acre do medo.
Ninguém tem tanto poder de se livrar
dos seus próprios desesperos.

Parece tudo claro, evidente
como se as peças de um jogo estranho
não combinassem entre si.
O jogador sabe que este jogo estranho
não tem bom desfecho.

- Mas não sabe parar de jogar,
é um vício antigo!

Uma incerteza incômoda e feroz invade
como se todos os órgãos e peças
deste cenário lúgrube,
concorressem para a catástrofe.

- Não temos tanta força
para lidar com o destino!

Não se tem garantias de que viver;
é melhor do que desistir e renunciar.
Um  sonho é um desejo enigmático
que mesmo um sábio, em qualquer ciência,
não tem como decifrar, sem amor...

Um velho e sereno sábio
pode ter em mãos alguns truques
algumas frases sábias.
Mas no coração de todo homem,
mesmo dos mais sábios,
circula o sangue selvagem
de vermelho viscoso e espesso...
Indomável, vertiginoso e quente.

O destino tece sua trama
sem fazer consultas as suas marionetes
Tem um poder maior
que o coração, a alma e a paixão.

- Nunca será domado!...

O domínio pleno de seus desígnios
talvez só um tolo jogador
ingênuo e sincero demais
possa, com sua espontaneidade de um menino
encontrar-se bem com a inconsciência
de todas as leis sobre a vida!

Aquele que acredita saber e conhecer
o bem e o mal da existência
engana-se, como um caracol que só conhece
a sua morada!

Para toda ferida, para toda angústia
tem um segredo, um mistério...
que não precisa de muita sabedoria
para revelar-se puro e verdadeiro.

O sentimento obscuro carrega a herança
maldita de ruínas e resíduos.

- De onde vem tanta serenidade e ternura,
nesse mundo pleno de sentidos?

São Luis, 11 de janeiro de 1995.

§ § §

DE REPENTE...

para Adriana

De repente a tua presença,
o teu vulto, a tua imagem
me trouxe bem perto estes pensamentos
que são tão difíceis de se dizer a qualquer momento,
num bar, na rua ou em casa.

É difícil dizer o que sentimos,
Como se diz...
as palavras sempre parecem inadequadas...

Os sentimentos são movimentos da alma
e é difícil dominar o movimento de todas as coisas.

Mas, o que eu queria te dizer nesta hora, neste agora,
é que, da mesma forma que você,
eu me sinto frágil e vulnerável
e que eu seria um mentiroso se dissesse
que me sinto seguro, forte,
determinado, prático...
Ou estas palavras tão da moda como
o mestre da eficiência, competência...
Têm algum sentido, agora?

Deu-me uma sensação estranha
de estar representando algo que não sou "eu"...

No fundo o que eu quero te dizer
é que não existe toda verdade,
ou alguém mais certo que o outro,
e que eu também tenho os meus fantasmas,
as minhas fantasmagorias...

É daí que também vem
minha devoção,
e meu amor por você! 

São Luis, 25 de Agosto de 1995.

§ § §

OS BÁRBAROS

À perda da prima Heloisa/1996.

Eles venceram... nessa hora!
Estamos dominados pela barbárie,
impera o medo, o terror, a injustiça...

Como é que nós ainda aceitamos este estado de coisas?

De todo lado, notícias
dos mais variados atos iníquos,
perversos, cruéis, desumanos...
A todo momento ouvimos
os casos mais escabrosos de assassinatos,
acidentes de trânsito, roubo, fraude,
falência, violências...

Como é que nós aceitamos este estado de coisas?

Toda sorte de iniqüidades espalha-se,
os bárbaros venceram em todos os seus planos de saque,
de espoliação, de opressão, de violação...
Quais são hoje os valores?
Os valores em bancarrota...

O que pode vir a ocorrer de mais cruel?
É difícil garantias...
A economia e o país,
Des-educação emergente
e saúde urgente,
ou a vitória da escória,
do obscurantismo, da ganância...

Padrão moral dominante
muito abaixo da dignidade...
Eestamos sujeitos a sorte
de vigaristas, canalhas e vilipendiadores...

Os bárbaros venceram!

Mas quem são eles?
Qual será sua representação concreta,
nos nossos cotidianos? Bandidos?

A barbárie é a situação na qual se encontram
Os mais empobrecidos do planeta.
Econômica, política e culturalmente deprimidos,
a barbárie impera
como um estado de coisas negativo,
anômico, patológico.

Não se trata de uma “desordem”,
ou de “desorganização”...
em nossos países existem situações
que são muito mais graves
que uma “crise institucional”.
São expressões e sintomas
de desagregação profunda,
de decadência dos verdadeiros valores da vida.

E quem são os bárbaros?

São aqueles que tiram vantagens desta situação.
São os que podendo agir não agem,
os que podendo mudar não mudam..

Estamos entregues a esta sorte de acontecimentos
Diabolicamente orquestrados para aniquilar
nossos sonhos,
nossas frágeis esperanças.

Devemos cuidar,
proteger, organizar
agir contra este estado de coisas.
De toda forma devemos criar
núcleos de proteção da vida.
Nas escolas, nos bairros, nas ruas.

Recuperarmos nosso ser vital
e a expressão mais justa
da vida em sociedade...

§ § §

“- Quem pode dar diplomas ao espirito?”

para Antonin Artaud

Arrogância: palavra que mais aparece nestes últimos tempos.
Algumas pessoas se dizem arrogantes,
Doutores, nobres, com louros na cabeça.

Dizem que estão superiores, intelectuais...

Sinceramente, o que pretendem?

 “- Quem pode dar diplomas ao espirito?”.

Esta é uma frase poderosa
É pretensão de uma pessoa comum pretender escrever
ou falar em nome do Espírito?
Muitos pensam que sim!
Ser pretensioso, arrogante, metido a intelectual
é uma coisa pedante, má, desagradável, crítica demais e chata.

É o que pensam...
Os compreendem deste jeito.

É o que posso comentar disto.
A arrogância não é boa ou má,
pode-se ser ou ter uma atitude arrogante
de diversos modos diferentes.

Na psicologia mais profunda o que parece aos outros
ou o que aos outros parece ser
não determina nosso ser.

O que falam
não corresponde ao que somos,
que sempre será maior e mais misterioso.

Salvador Dali e sua paranóia crítica.
As representações, ou imagens,
que os outros fazem de nós
deve passar pelo crivo de uma crítica dita “paranóica”.
Seu método na pesquisa em artes plásticas,
No cinema e imagem, tem um significado não-clínico.

Se podemos pensar num conceito,
a ultrapassar o significado de paranóia como uma entidade clínica,
é porque como artista se pode usar o termo e a palavra Paranóia,
num sentido que transcende a linguagem médica e psiquiátrica.

Outra palavra
Referência de uma atividade mental afirmativa e critica.
Paranóia como método e pesquisa,
conceito plástico e concreto.

Se pensamos no conceito como uma síntese mental da realidade,
como um pensamento concreto, plástico, estético.

Salvador Dali, aqui
Em sua obra ensina de como usar as representações
que fazem de nós,
como material crítico, material psicológico.

Salvador Dali,  aqui
como de todo ser humano,
não se reduz a dimensões da existência.

Síntese estética...
metassociologia e metapsicologia,
antropologia da arte-síntese.
Teoria crítica da produção artística...
Escritura, partitura, pintura...
Sem diplomas ao espírito.

06 de janeiro de 1997.

§ § §

POEMAS

Escrevo poemas
na tela fugaz da alma...
Onde desenho
as palavras do mundo.

São Paulo, 04 de maio de 1998. 

§ § §


O SONHO

Esta noite me veio em sonhos imagens e pensamentos, assim como sensações misturadas e confusas, como não poderia deixar de ser para o mundo das mensagens oníricas...

Entre as imagens perdidas e nubladas, um contato físico profundo e sensual com a mulher; ora era A., ora se metamorfoseava em B. Morena bonita, clara; a quem dizia que amava, e ela correspondia. Estávamos num abraço mais do que carinhoso, erótico. Passou a chorar uma dor que não podia atingir ou compreender. Sem remorsos, sem mágoas, era um choro de mulher; mistura de felicidade, temor e sentimento oceânico... Choro lacrimoso e demorado; pensei em sorver todas as suas lágrimas como se bebesse um líquido de alimento para a alma.

Bebia suas lágrimas quando a imagem se transformou em pensamento: o líquido que escorria tinha a viscosidade, a espessura e o brilho da prata dos espelhos que refletiam os fluxos as imagens-cenas mais importantes da minha vida. O seu significado mais profundo, sua força maior, talvez venha daquilo que talvez ainda me salve de sucumbir neste turbilhão de caos.

Beber o líquido dos reflexos dos espelhos, as lágrimas como o alimento de minha alma... Não sei ainda o que significa esta imagem, mais surgiu um temperamento bom, uma serenidade de espírito... A mulher que esta por trás da imagem de B. e de A., - talvez seja um mito antigo de minha alma, um mito que tem a força de manter viva a estrutura emocional de minha personalidade. A imagem-fonte vem do fundo destas cenas oníricas. Talvez mais longe ainda, no feminino, na mãe-do-mundo, Demeter, Yemanjá, Maria, etc. 


§ § §


WALT WHITMAN



Nunca li nada mais bonito, singelo e lírico.
O lirismo é a marca primordial dos seus poemas.
Como num sonho surge o espírito todo do mundo.
Todas as partes do mundo se encaixam na sua poesia.
Talvez as pessoas de hoje
sintam dificuldade de entendê-lo.

Mas, afinal, quem é que lê, conhece
ou ouviu falar de Walt Whitman?
Quem ainda dá importância ao seu lirismo,
ao seu panteísmo romântico e mágico?
Poucos, pouquíssimas almas contemporâneas
se deliciam na sua escrita!

Walt Whitman faz lembrar de Empédocles,
o filósofo pré-socrático que percebia o mundo
constituído pela mistura, ou combinação,
dos quatro elementos básicos da physis:
ar, fogo, água e terra.
Reconhecido de modo anedótico
como o primeiro hippie da História Ocidental!
Da mesma maneira, Walt Whitman, é considerado
um precursor dos beatniks ...

Podemos fazer tantas referências, lembrar influências,
citações, inspirações, etc...
A verdade mesmo é que
"seja você quem for..." que ler os poemas do vate,
terá a satisfação de aproximar-se
do espírito no mundo.

O espírito não está em toda parte, como dizem!
Hoje, poucos são os homens e mulheres
que o percebem, que o sentem, que o enxergam...
O espírito, ou a alma, a que me refiro,
é o sentimento pleno, profundo
e mágico de viver o mundo.
Hoje, as pessoas não estão acostumadas a admirar-se,
surpreender-se, ou espantar-se com a existência.
A maioria de nós não passa de andróides
programados para realizar tarefas ínfimas,
quase infames...
e aceitar o bocado de vida que nos oferecem
por alguns tostões furados.

Na poesia de Walt Whitman, ainda é possível
respirar o grande amor, a paixão pura, o sentimento sublime...
Ainda é possível encantar-se com as máquinas,
com as multidões, com os operários...

O espírito santo e puro está em todos nós,
é preciso estar atento e de olhos abertos,
para suportar esta indiferença toda
e a atual mixórdia de exortações inúteis.
O espírito livre para florescer soberbo e forte
como um dia de Sol tem que ser cultivado
com amor, com sentimento e ternura...

Precisamos criar em todas as pessoas,
"sejam elas quem forem",
a sensação da mensagem verdadeira e lúcida
como o brilho do Sol.
Assim, talvez no futuro
possamos compreender melhor
a poesia de Walt Whitman. 

7 de julho de 2011

TRINDADE DANTESCA - Nauro Machado

Canção do (D) Exílio
Nauro Machado

Não permita Deus que eu morra
nesta terra em que nasci:
que a distância me socorra
e com turbinas me corra
de quem minha nunca cri.

De quem, minha, foi madrasta
desde o início ao anoitecer,
e que como gosma emplastra
o infinito que desastra
meu desespero de ser.

Nosso céu tem mais estrelas,
nossos bosques têm mais vida.
Mas, somente a merecê-las,
se abram os olhos que, ao vê-las,
têm a córnea pervertida.

Nosso céu tem mais primores
quando o crepúsculo baixa:
são os mendigos e as suas dores
carregadas nos andores
como defuntos em caixa.

Onde cantou o sabiá,
cantou outrora a cotovia
e hoje canta, em outro ar,
nenhuma ave, que as não há
nesta terra, morto o dia.”

15 de junho de 2011

CONTO DO ZÉ CUECA

O HOMEM DE UMA CUECA SÓ


"As paródias e as caricaturas são 
as formas mais agudas de crítica". 

A. Huxley


Este conto é um exercício do que os gregos antigos chamavam de 'metempsicose', isto é, a 'transmigração das almas de uns para outros corpos'. Mas, será uma metempsicose de rápido efeito literário. Essa experiência será fugaz e logo se entenderá o motivo, já que o ar que entrará em nossos pulmões será por demais sufocante. Não obstante, sofrerá não só nossos pulmões sensíveis, mas nosso estômago, nosso fígado, e nossa alma tão combalida nos tempos hodiernos.

Através dessa breve estória de um homem que se formou sob as condições mais adversas, partindo de uma humilhação severa e lastimável na infância, vamos conhecer um pouco as façanhas de um embusteiro que se vangloria de ser um dos exemplares típicos do tão difundido self made man; alpinista que subiu a escala social por seu próprio esforço, "pulando carniças". Alguém que escalou da classe média baixa branca, abaixo do Trópico de Capricórnio - quase um lupemproletariado suburbano -, para a classe dos letrados e diplomados. Isso, em tempo recorde, galgando novos horizontes e desfrutando, hoje, de realização plena; conquista há muito cobiçada. Vamos assim penetrar na mente de um homem complexado na sua intimidade mais crua e nua.

A vida de nossa personagem peri-patética sempre foi um rosário de traumas bizarros e vexatórios. Esse homúnculo faz-nos lembrar os casos mais dramáticos, daqueles que passaram momentos paralizantes em vida, especialmente no período da adolescência e na juventude.

Para sair de casa e estudar; como dizia sua querida mamãe: - para ser alguém nessa vida!, nosso sub-herói passou a maior parte de suas muitas angústias, escondendo-se de todos! Dolorido destino de esconderijos! Contudo, por que se esconder do mundo? Que triste: só possuía uma única cueca puída! Sob a sina desse desafortunado destino tinha que chegar em casa, depois da labuta, e lavar a cueca rapidamente, pendurar no varal (ou atrás da geladeira), e no dia seguinte, vesti-la de novo, mesmo que ainda estivesse molhada, ou úmida do sereno, ou sob a ação implacável do frio que sempre vinha dos confins da Patagônia...

Quantos danos não causou tal vergonha! Além de pobre, ter que passar por isso: apenas uma cueca para viver! Era um garoto pobre, comum, mas nascido branco, com olhos claros, nome de origem saxônica, provavelmente germânica. - Oh! Polaco, vem cá! - Oh! Galego, 'tá com fome? Oi! Branquelo! Quer um brinquedinho? Então, Alemão, tem que dar p'ra rapaziada! Por uma cuequinha, eu faço tudo!

Que vida difícil essa: vida humilhante! Mas, um dia,  Cueca disse para si mesmo: - Vou me vingar! Serei poderoso e terei muitas cuecas e muito poder!

Só uma cueca! Ninguém dava ao menos mais uma mísera cueca para esse rapaz?! Ceroulas, nem pensar! Queriam vê-lo passar por essa situação: ficar pra sempre marcado, avexado, traumatizado, complexado... Conseguiram! O rapaz nunca esqueceu essa vergonha!

Mas, leitor, toda essa humilhação, produz que tipo de gente? Alguém que passou a juventude e o começo de sua vida, tendo que ir estudar e trabalhar - só com uma cueca - tornar-se-á que tipo de pessoa? Temos a resposta: - um fascista, no sentido pleno do termo! O verdadeiro Zé Ninguém de uma cueca só! É o rastejante Zé Cueca dos subterrâneos do mundo moral humano!

Com o passar do tempo o que todos chamavam de polaco, russo, alemão, galego, começou a galgar novos patamares e conseguiu comprar uma segunda cueca, e depois mais uma, e depois mais duas... Até que estava cheio de cuecas em suas gavetas. Nunca mais queria passar por humilhações desse tipo: teria cuecas sempre, e muitas!

Todavia, podes imaginar, leitor amigo, o seu caráter do Zé Cueca ficou fraturado, definitivamente mutilado! O que é uma cueca, na vida de um homem? O que a falta dela pode fazer a um Zé Ninguém? É muita humilhação especialmente no momento de sua formação para uma "educação moral" exemplar! Uma Cueca Só, bem fundamental para a auto-estima de um grande camarada!

Vejam só a importância absurda que algo totalmente insignificante pode adquirir na vida de um Zé Ninguém. Para esse sub-ser assujeitado a esta humilhação, começou a vida de vergonhas; a partir do momento que tinha que se vingar de todos, de qualquer um que se colocasse na sua frente, ou o atrapalhasse em atingir seus objetivos de poder e privilégios pueris.

O Homem de Uma Cueca Só, tornou-se o maior de todos os fascistas, o mais conhecido da cidade. Hoje tem um parceiro de muitas pelejas e aventuras na Ilha do Cuesquistão: seu chapa e mui amigo, mais conhecido como o Marinheiro das Mandingas. O maior anão do mundo, com seus passos de velhaco de terraços baldios! Hoje anda preocupado em amparar mães-solteiras nesse mondo canne! Está pensando em criar uma ONG das mães-solteira! Nunca gostou de franciscanismos, adora mesmo é um batuque, mas tem suas missões de caridade nesse mundo satânico!

Essa dupla nazi-fascista, sub-heróis da pré-modernidade recalcitrante, tem aprontado muitas peças por essas plagas da linha do Equador! Os dois disfarçados de mestres dos "conhecimentos" - especialistas em "educação moral" - seguem sua saga peri-patética! Hoje em dia, depois de diplomados, oferecem diplomas para seus clientes tornarem-se mestres da 'cultura' e da 'sociedade'!
Leitor amigo, com esse conto inicial, ligeiro - pois essa técnica da metempsicose criada pelos gregos, exige celeridade na escrita; quase uma psicografia -, começamos a narrar as aventuras do Homem de Uma Cueca Só e do seu fiel escudeiro, o Marinheiro das Mandingas!

Nosso objetivo maior é descobrir a fórmula mágica, importante nos tempos atuais, qual seja, aquela de como decifrar e se livrar de um fascista de merda e de um nazista ridículo; infiltrados nas diversas gangues de zumbis e escravos pós-modernos!

* * *
A verdadeira fidalguia é a ação.
O que fazeis, isso sois, nada mais.
Vieira, Antonio.

O que fará o Homem de Uma Cueca Só quando seus castelos de areia começarem a desabar na maré cheia, que nem espigão costeiro segura? Correrá atrás dos conselhos do seu amigão o Marinheiro das Mandingas? É um mistério! Como reagirá o Dono da Fábrica de Mestres quando o seu mundo começar a ruir, pela força física natural das coisas desse mundo: - toda ação provoca uma reação?! Não sabemos ao certo! Ainda é cedo! Devemos aguardar os acontecimentos e o desenrolar do processo kafkaniano de apuração dos fatos e depoimentos; afinal uma sindi-cância! Ufa! Um grande inquérito promovido pelo Dono da Fábrica de Mestres - em busca da apuracão das denúncias de abuso das leis da Educação Moral (sic) - está em curso e devemos esperar a conclusão dos trabalhos da Egrégia Comissão.
Uma lástima que a metempsicose limite nosso alcance e não possamos vislumbrar o futuro! O que será do fantoche de Ditador Abaixo do Trópico de Capricórnio - caudilho perdido no Torrão Equatorial - quando seus exércitos de Homens de Uma Cueca Só forem derrotados nas areias escaldantes desse vasto litoral? Um mistério, que nem São Sebastião pode nos ajudar a desvendar!
Quantos mistérios, quanto mar! Hahahahahaha...
Que comédia! Que anedota! Que caricatura! Todo ser humano tem que pagar pelo seu mal, e receber pelo seu bem! Não tem escapatória! Aguardaremos o desfecho dessa novela cômica e ridícula!

* * *

O medo afugenta o Homem de uma Cueca Só! Será que os tempos de dificuldades - pobreza, frio e doença - voltarão? Será que o tempo das vacas magras vão assolar o peitoril da janela da fartura e do poder fácil; com a cumplicidade dos vassalos e dos covardes da moral?
A quem o nosso sub-herói pós-moderno deve procurar para se aconselhar nesse momento difícil? O grande Marinheiro das Mandingas, ora! No entanto, o mestre dos sortilégios está muito ocupado com a legião das mães-solteiras que vicejam por todo lado. O nosso Popeye, dos espinafres de J'ão Gome', anda muito atordoado com a possível degeneração da civilização, que depois da sífilis, se vê numa bifurcação, que dessa vez pode ser fatal: - a proliferação de mães-solteiras! O velho Popeye Equatorial não pode dar atenção ao amigo Brutuculus (mascarada e avatar do Zé Cueca) com suas cantilenas moralistas! O Homem de uma Cueca Só, vive um momento de agruras e solidão, como um moribundo que não sabe o que fazer, no momento crucial de enfrentamento da verdade: - vou morrer!
É a volta daquele sentimento de frustração visceral, lancinante, que atravessa as fibras da alma desconstruída, sem costura, solta como uma folha de outono ao cair da tarde! Quanta poesia inútil para caracterizar o infortúnio de quem merece perecer! É a lição de vida que se retira dos fracos, escudados na panóplia da falsa fortaleza: o arruinamento dos desvalidos da Moral!
O que a carência de cuecas não faz com um fraco de espírito?! Que desastre psicológico patético, num ser tão estúpido! Se não é pra chorar de piedade e compaixão, é para se rir, às pândegas, dessa cena demasiado esdrúxula! Perdas e danos irreparáveis! Aguarde cuequeiro, tua hora está chegando!
É a volta do sipó de arueira, no lombo de quem mandou dar! 

* * * 

Está chegando o dia do Zé Cueca apresentar as suas provas na oitiva em que será a atração da hora! Lamentamos a perda recente do inocente que continuaria o meliante nesse mundo; seria desumano mostrar-se indiferente diante de tal tragédia. Mas, quantos sinais de mal agouro estão em torno desse personagem! Não se admira que os que o conhecem lhe colocam a alcunha de "pessoa nefasta" - cueca de bosta! Bem adequado! Uma pessoa nefasta, vive de circunstâncias nefastas, sofre as reações nefastas de seus atos nefastos...
Sua tragédia pessoal parece ser o preço pago pelos infortúnios infringidos aos que o cercam. Diz o povo sabiamente: - aqui se faz, aqui se paga!
Tanta negligência para com os outros, acabou revelando negligências pessoais, logo à quem mais oferecia 'a-mor'! Será mesmo? Era a-mor? Quem ama cuida, preza, mima... Não foi o caso! Mor-réu!
Mas, o grande dia está chegando; faltam poucas horas! Como será a performance do moleque do falta-cueca? Como vai agir o desmiolado e energúmeno? Não sabemos ainda! Veremos ao vivo e em cores!

* * *

‎"Fogem os ímpios, sem que ninguém os persiga;

mas os justos são ousados como o leão."

Provérbios, 28:1.


Zé Cueca, o covarde da hora! A máscara caiu da cara do cuequeiro! Ninguém poderia crer ou prever esse lance de fraqueza, no momento crucial. Jogou a toalha? Zé Cueca se borrou todo? Talvez ainda seja cedo para chegar a essa conclusão. Mas todos ficaram abismados; afinal, era a chance de sua manifestação de poder e articulação palaciana! Que nada! Fugiu, se escondeu, se acovardou silenciosamente!
Assim, nos deu mais uma chance de elevar-nos bem acima dos ratos!
Pobre de espírito, pobre de origem, pobre sem coragem; um desgraçado pleno, em todos os sentidos! HOMÚNCULO!
Seu mundo caiu, e começa a erodir toda a sua esperança de manter em pé seus castelos de areia! O tempo passa e a ruína do miserável se acentua, aprofunda, desce a ladeira da misericórdia!
Zé Cueca sai escondido pelos fundos, todo borrado, sujo dos dejetos que ele mesmo lançou ao vento! Cuspiu para o alto, o coit-ado! Triste sina de um mentecapto celerado! Zé Cueca, a partir de agora será conhecido também como Zé Fujão! Pega! Pega esse rato!
Assim, mais uma vez se confirma as palavras das Escrituras: "O culpado foge sem que ninguém os persiga"...

* * *

Será que o Zé Cueca está perdendo o controle definitivo da situação? Parece que persiste ensandecido, em passos mais arriscados, tentando levar adiante seu processo de desatino; está convocando mais 'sindicâncias' no seu Castelo-Bunker! Estaremos em alerta para decifrar as novas charadas do cuequeiro desvairado!

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Zé Cueca conseguiu organizar a tropa; pretende levar a frente seu projeto fascista. Seu colega o Marinheiro das Mandingas está com ele; a novidade é que se juntou ao bando o fidelíssimo ilhéu dos embargos, o Plebeu dos Fundos, e o Silvestre Careca, idi-ota das Caraíbas. A quadrilha está organizada e com planos ambiciosos. Vamos ver o que vão conseguir, navegando na Stultifera Navis. 

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O Zé Cueca 'ta se borrando todo! Hahahahahahahah

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No Carnaval que se aproxima, as fanfarras e blocos de Sujos e Clóvis já estão com uma marchinha animada que vai embalar os desfiles dos foliões em êxtase:

Zé Cueca pode esperar,
a tua hora vai chegar!
E avise ao Marinheiro,
p'ra ele não se borrar!

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O Zé Cueca está fugindo!
Ele e seu fiel escudeiro o Marinheiro das Candongas!
Pega, pega!
Os covardes não têm mais medida!
Desesperados cavam fundo sua cova
No Inferno!